(Freepik) O teatro é uma das artes mais antigas, mas que carrega uma força grande na formação do público, nunca superável. Mais do que isso, ela abre cabeças e traz visões que antes pudessem estar apagadas ou à meia luz. A arte da dramaturgia sempre foi perseguida por governos ditatoriais ou em momentos conturbados das nações, pois ela revela com a palavra atitudes e formas de olhar os fatos de maneira diferente do que esperam os censores de plantão. Mas ela é contundente e reverbera como um eco dentro de cada um, fazendo pensar, o que muitos hoje têm preguiça de fazer ou por comodidade. A peca “O que só sabemos juntos”, em cartaz no Teatro Tuca, de São Paulo, não só traz à tona alguns desses aspectos, mas apresenta questões do dia a dia e realidades de um casal, puxando pela memória, criatividade, imaginação, meio ambiente e um grito em defesa da mulher. Protagonizada por Tony Ramos e Denise Fraga, que dão um show de representação, a montagem vai trazendo lembranças que ficaram no passado e, com quase nenhum cenário, faz o público imaginar do que estão falando. Dançam, cantam e declamam, sendo que um ponto alto é a leitura de um trecho da obra do célebre escritor e dramaturgo russo Antón Tchékhov, que traz para os tempos atuais sua perspectiva do meio ambiente e da relação do ser humano com a natureza. Automaticamente, dá para fazer uma ilação com o projeto de lei chamado de PL da Devastação, aprovado na calada da madrugada pelo Congresso Nacional. No século 19, ele já falava dos ciclos da vida e do conflito humano com o progresso. Talvez, o texto lido se referia à obra O Jardim das Cerejeiras (1904), onde o jardim representa tanto uma conexão emocional e histórica com a terra quanto a destruição causada pelo avanço do capitalismo e da modernidade. A derrubada do jardim simboliza a perda de um vínculo com a natureza em nome do lucro. Uma outra obra desse escritor, que aborda diretamente a degradação ambiental e a exaustão dos recursos naturais, é Tio Vânia, onde ele demonstra profunda preocupação com o futuro do planeta — o que é bastante avançado para a época. Portanto, vale dizer que um teatro com 700 pessoas na plateia, em uma única sessão, é capaz de transformar opiniões e tirar da letargia aqueles que estão no vício dos celulares e das telas, engolindo somente o que é postado, muitas vezes sem nenhum critério e com inverdades. Quando não se conhece a fonte da informação, fica difícil acreditar, mas o sujeito vai repetindo sem qualquer fundamento e sem uma avaliação crítica. As artes de modo geral, e aí incluo a literatura em destaque, precisam oferecer maior acesso à população, democraticamente, com custos acessíveis a mais camadas da sociedade. *Eunice Tomé. Jornalista e escritora