A peça de teatro Não Me Entrego, Não!, encenada este mês no Sesc-Santos e que tinha à frente o ator plural Othon Bastos, nos traz para a cena da dramaturgia o quanto é exigido da pessoa que decide dedicar-se a usar a palavra em um contexto próprio e cheio de referências da cultura e da arte. Essa é a sensação que deixou ao público o trabalho magnânimo de Otto, com a experiência de 75 anos de palco e de 92 de idade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A poesia esteve presente todo o tempo, em trechos clássicos, que foram sendo declamados de peças que encenou durante esse longo período de vivências, mas ficando claro que apesar de todas as dificuldades enfrentadas, e até hoje, não desistiu da vida, da profissão e da paixão pela interpretação. Em um determinado ponto alto, ele afirma que o “teatro é a poesia que sai do livro e grita”, em que faz apologias a essa arte e mostrando a supremacia em comparação com o cinema e a televisão. Há atores que interpretam personagens. E há aqueles que, simplesmente, os atravessam — como se fossem feitos da mesma matéria invisível que sustenta a memória. Ele pertence a essa segunda linhagem. Em “Não me entrego, não!”, não é apenas um homem em cena, falando das suas experiências desde a adolescência. É o tempo que se senta diante de nós, respira, hesita, e segue. A peça não se apressa. Ao contrário — ela nos desacostuma da pressa. Cada pausa parece carregada de lembranças, cada silêncio diz mais do que qualquer fala poderia ousar. A plateia atenta, quase toda de pessoas maduras e que viveram algumas das épocas retratadas, ia fazendo mentalmente um retorno a companhias teatrais, atores e diretores famosos, quase todos não mais entre nós. E a certeza de que a arte suplantou e venceu desafios, deixando marcas na sociedade, pela força de textos de grandes dramaturgos, na voz potente do ator presente de corpo e alma. Há algo na peça que não se rendeu — talvez a dignidade, talvez a memória, talvez aquilo que ainda insiste em ser humano, quando tudo ao redor convida ao esquecimento. Ele nos desafia a não nos entregarmos, confirmando o pensamento de Jean-Paul Sartre, que nos fala que o homem nada mais é do que aquilo que faz de si mesmo. Como que corroborando com a grandeza do que assistia, a plateia aplaudia de tempos em tempos, mas ao final, não há aplauso imediato. Há um silêncio, como se a peça não terminasse ao fechar das luzes, mas continuasse a se mover por dentro, reorganizando afetos, despertando lembranças, pedindo, em voz baixa, que também nós não nos entreguemos. E o teatro vai se esvaziando, aos poucos, com a voz retida e sendo levada com cada um.