(Shutterstock) O mundo gira. E não é só no sentido literal. A história da humanidade, seus ciclos de bonança e turbulência e os caminhos trilhados por seus dirigentes seguem um movimento pendular. Ora somos brindados com fases amistosas, ora atravessamos períodos mais hostis. Nada de novo - a roda do tempo segue girando, como sempre. O problema é quando a tal roda começa a ranger, e o que deveria ser apenas mais uma virada de ciclo soa, na verdade, como um passo atrás. Em vez de evolução natural, temos retrocesso. E quando esse retrocesso vem embrulhado em uma estratégia global com promessas de resultados macroeconômicos positivos, mas cuja conta é repassada ao consumidor. nesse caso do mundo inteiro, na forma de sobretaxas e tarifas, é difícil não torcer o nariz. Claro, seria simplista demais achar que estamos falando apenas de economia. A coisa é mais embaixo. Há interesses geopolíticos, rearranjos de poder e, acima de tudo, disputas por influência. E é justamente nesse contexto nebuloso que o Brasil, surpreendentemente, tem um raio de sol no meio da tempestade. Em meio ao caos tarifário global - e acredite, ele está só começando -, o Brasil escapou praticamente ileso. Sorte? Sorte de principiante, talvez. Ou quem sabe um alinhamento planetário raro. Porque se dependesse do brilhantismo da nossa diplomacia ou da turma que tem a caneta na mão, estaríamos no olho do furacão. E sejamos francos: brilhantismo no protagonismo internacional não tem sido o nosso forte. Prefiro apostar em uma hipótese mais plausível. Trata-se do pensamento geopolítico peculiar de Donald Trump, que enxerga o mundo dividido em três blocos: as Américas sob a influência dos EUA, a Europa sob a sombra da Rússia, e a Ásia nos braços da China. E, claro, é conveniente manter o quintal das Américas em paz - especialmente um vizinho como o Brasil, que abastece o mundo com alimentos, minérios e, de quebra, ainda ostenta o título de potência ambiental. Então, fica a pergunta: saberemos aproveitar essa oportunidade dourada que surgiu diante dos nossos olhos? Sinceramente? Difícil. Somos especialistas em desperdiçar chances históricas - e quando o bonde do progresso passa, estamos geralmente ocupados demais discutindo o próprio umbigo ou duelando em guerras ideológicas. Provavelmente, daqui a alguns anos, alguém vai puxar esse capítulo da história e dizer, mais uma vez: “Oportunidade havia, mas o Brasil... bem, o Brasil foi o Brasil.” *William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor