(Freepik) Da minha janela, vejo a grande serpente fazer a curva do Sideral, em meio à tempestade. Seu rastro brilhante e sinuoso perfura a escuridão. Por um instante, ela parece controlar o caos ao seu redor e planeja caminhos diante da incerteza. Esse controle é apenas uma ilusão. Cada movimento é uma luta em sentido oposto à trilha, marcada por lacunas e abismos multiplicados como feridas abertas na pele molhada do concreto vivo. A água escorrendo do céu e lavando o caminho é um lembrete constante: a desordem pertence ao território, não à criatura que o atravessa. A noite avança e a serpente pretende retornar à sua toca. O corpo longo e ainda luminoso oscila à medida que enfrenta os obstáculos, como assombrações, em sua trajetória. Buracos brotam, camuflados pelo véu de água da tempestade, desafiando-a e obrigando-a a ajustar-se, hesitar e encontrar meios de avançar. Cada curva torna-se prova de sobrevivência. Ela resiste, movida por uma determinação quase inexplicável, como se fosse parte de um ciclo impossível de ser interrompido. Amanhece, seu corpo único fragmenta-se, transforma-se em incontáveis pequenas frações. Luzes silenciadas dançam livres, guiando caminhos solitários em seus próprios cursos, frágeis e dispersas, espalhadas, gerando uma coreografia caótica. Contudo, a divisão não altera sua essência, mantendo a pulsação da selva de concreto. No decorrer do dia, aqueles buracos e imperfeições desafiaram a grande serpente à noite, multiplicam-se, como cicatrizes que não cicatrizam. Território mutável e indiferente às necessidades da serpente e suas partes. Enquanto a desordem continua na movimentação, há um senso inevitável, tornado comum o confronto entre criatura e caminho, como se fosse essencial parte da rotina. Um dia, essa floresta tornar-se-á um buraco de Furnas. O espaço público é a manifestação da ação humana construída com interação e diálogo. Quando há lacunas nesse espaço, a reflexão é imprescindível. A relação entre a iniciativa individual e a ausência de um esforço coletivo coordenado configura elementos decisivos para manter saudável a esfera pública. A fragilidade das estruturas responsáveis por sustentar a convivência está atrelada à incapacidade de preencher esse vácuo, colocando em risco o compromisso com o mundo compartilhado. Eu observo a tudo isso! A grande serpente continua persistente e podemos refletir que quando o macro e o micro não se alinham em uma luta por ideais, surge a desconexão e isso limita o impacto e o alcance das mudanças desejadas, levando-nos a conflitos entre prioridades e alienação. O descaso do micro leva à desorganização do macro. Para isso, necessita uma união para surgir o equilíbrio e esse equilíbrio é uma dança delicada, capaz de transformar sonhos em realidades. Assim, a serpente traçará seus caminhos e essa determinação será suficiente. *Professor, escritor, ativista cultural e Diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais