[[legacy_image_287437]] Em uma época em que poderíamos trabalhar menos e ganhar mais, a ideologia da positividade, do estímulo, da eficiência e do reconhecimento social, com a superação das nossas próprias limitações, opera uma inversão perversa. Trabalhamos muito mais, recebemos bem menos e vivemos exaustos. Perdemos o direito de descansar, de buscar distrações, diversões. Tornamo-nos sujeitos de desempenho e produção, empresários - ou carrascos - de nós mesmos. As metas precisam ser alcançadas, haja o que houver, custe o que custar. O consumo foi banalizado. A interação social, idem. Afinal, ela custa tempo, dá trabalho e pode ser complicada. Melhor fazer isso pela internet, onde é tudo mais rápido, mais prático. Em 2015, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, no livro Sociedade do Cansaço, já alertava para os efeitos colaterais do crescente discurso motivacional, presente em palestras, livros, cursos. A pessoa está no limite de sua força física, mental e emocional, e ainda assim procura - ou é levada a procurar - estímulos para seguir em frente, sem perceber os riscos que isso implica. É como se estivesse em uma olimpíada, na qual a medalha de ouro só será alcançada se não ceder um milímetro ao risco de esgotamento. Religiões tradicionais têm perdido adeptos para novas igrejas, que trocam o discurso do pecado pelo do encorajamento e da auto-ajuda. Instituições políticas e empresariais mudam o sistema de punição, hierarquia e combate ao concorrente, utilizando a positividade tóxica. Byung-Chul Han observa que a paisagem patológica do começo do século 21 é determinada pelas doenças neuronais como a depressão, o transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade, o transtorno de personalidade limítrofe ou a síndrome de Burnout. A cultura vigente, privilegiando a hiperatividade, a produção exaustiva, não reconhece os riscos de essa exaustão determinar doenças. É a onda do “Yes, we can!”. Sim, nós podemos! Não há espaço para negativas. As pessoas perdem o equilíbrio, a sensatez e chegam a ter dificuldade para reorganizarem sozinhas a própria jornada, o próprio caminho. Bem antes de Byung, outro filósofo, o indiano Krishnamurti, proferia uma frase emblemática: “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”. Era o reconhecimento de que a cultura em ascensão no mundo já carregava o poder de implodir o sentido da vida. Não se trata aqui de negar a importância do trabalho e tampouco de achar que o cansaço não deva existir. O cansaço é um processo fisiológico inerente à vida. Não é nenhuma tragédia e acontece em diversos momentos, pelas situações mais diversas, inclusive pelo trabalho. O que se aponta é a exacerbação da importância da atividade profissional, a produtividade ensandecida, cujos efeitos colaterais vêm merecendo a atenção de vários estudiosos. A ideia de trabalhar incansavelmente para acumular bens, para ostentar a condição de bem-sucedido, de vitorioso, pode ser uma armadilha para os mais incautos. É preciso sair do “piloto automático”, buscar alternativas que possam contribuir para a melhor qualidade de vida. Muitas sugestões têm sido apresentadas por profissionais da saúde, nesse campo, e se mostrado eficientes. Junto a elas, pode ser interessante também lembrar da importância do “ócio criativo” de que fala Domenico De Masi.