(Getty Images) Lá vem de novo a trupe do Trump versus Alexandre de Moraes. E, mais uma vez, como expectador passivo não torço para ninguém – como naquelas disputas de pênaltis a que assistimos sem palpitações porque nosso time não está em campo. Entre a soberba e a arrogância, para quem torcer? Há quem imagine que eventual imposição de sanções do Tio Sam a nosso “Excelentíssimo Senhor Doutor Ministro do Pretório Excelso” corroeria nossa soberania. Discordo, tais sanções nem arranhariam o verniz. Há outros motivos com os quais deveríamos nos preocupar: segurança pública é um deles. Estamos à beira – a apenas um passo – de nos tornarmos um narcoestado. Facções criminosas que atuam no tráfico de drogas dominam territórios – atuação ilegal que começou no Rio de Janeiro nos anos 1980 e se espalhou por todo o País. Nas áreas dominadas, exploram o transporte coletivo, administram a distribuição de botijões de gás e, ampliando suas “atividades empresariais”, passaram a controlar o acesso à internet. O crime (muito bem) organizado financia políticos, compra sentenças judiciais e já mantêm relações com grupos terroristas de fora do País. Não me é possível escrever com pitadas de ironia, necessito de doses cavalares de sarcasmo. Sorte nossa que a República Federativa de Pindorama tem se mostrado absolutamente sensível com a aguda crise – que já era crônica – na segurança pública, não é mesmo? Como é reconfortante ver os três Poderes da República unidos no efetivo combate ao crime. O Judiciário, atento, produz condenações de pessoas perigosas, que usam batom vermelho como instrumento da prática criminosa ou que, em teatros lotados, verbalizam piadas de gosto duvidoso. O presidente de Pindorama, por ter feito rigorosamente tudo que estava a seu alcance em relação à segurança pública (mas cuja miopia, fruto da vaidade, impede-o de enxergar sua diminuta estatura política no contexto mundial), agora, vem se empenhando em por fim aos conflitos na Ucrânia e em Gaza. Mantenhamos a esperança (assim como na picanha que virá) em que nosso presidente viabilizará a paz mundial. O Legislativo deve apresentar projetos de lei que sufoquem as atividades do crime organizado, tão logo aprove temas mais importantes para o País, como o aumento do número de deputados federais. Nossa soberania sangra em hemorragia interna. Não é possível detectar visualmente, mas já podemos sentir os efeitos da República adoecida. * Coronel da PM, advogado e escritor