(Imagem ilustrativa/Pexels) Sentou-se no banco do parque, abrigada do sol e do calor pela frondosa árvore que cobria o espaço. Observou as crianças que brincavam um pouco mais adiante nos balanços e escorregadores, alegres, rindo, correndo. O coração se apertou mais um pouco. Sensação ruim, que vinha sentindo com constância ultimamente. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Dizia a si própria que não tinha ao que atribuí-la, mas no fundo sabia: solidão. Filhos e netos distantes, morando em outros países; marido ainda ativo, dando mais atenção ao trabalho do que à companheira de tantos anos; amigas envolvidas com as próprias famílias, ajudando a cuidar de netos. E ela? Não mais exercia o papel de mãe, não podia exercer o papel de avó, enfrentava o distanciamento do marido. Haveria solução para a sua vida? Por solução queria dizer utilidade. O pensamento adquiria a velocidade da luz e o susto foi grande quando a jovem se sentou ao seu lado, bebê chorando nos braços, atrapalhada com a mochila das coisas da criança. O sorriso da moça não escondia o constrangimento com a falta de jeito para lidar com a situação. De repente, o aperto no coração desapareceu e o auxilio à jovem mãe foi automático: ajudou-a a se desembaraçar da mochila, conseguiu acalmar o bebê, utilizou-se de sua prática na troca de fraldas e ainda indicou a posição mais confortável para amamentar o pequeno, tudo ali no banco protegido pela grande árvore. A moça quase não acreditava naquela ajuda. Vida em cidade grande, longe da mãe e da família, sentia-se perdida nas tarefas de mãe. Estava já arrependida da ideia de ter ido ao parque para que o bebê respirasse ar mais puro, mas foi estimulada pela nova e mais experiente amiga a continuar fazendo esses passeios. Com a promessa de que, logo, ela estaria dominando a situação. Despediram-se com agradecimentos, recomendações e um beijo carinhoso. O aperto no coração da que enfrentava a solidão já não mais existia. Ficou ali mais um tempo e quando se levantou para voltar para casa, o pensamento já não voava, mas fervilhava: haveria tempo de voltar a sentir aquela sensação maravilhosa de amor que une mãe e filho? Concluiu que nunca havia pensado que esses laços não precisam ser físicos. Listou para si própria os exemplos de mães heroínas e também das que enfrentam a rotina das batalhas diárias para traduzir em bem-estar o amor que sentem pelos filhos. Decidiu que poderia ajudar a fazer a diferença. Passou a trabalhar na associação voltada a cuidar de mães em dificuldades. Voltou ao parque outras vezes, sentou-se no mesmo banco, observou outras mães, ajudou sempre que foi preciso. Mas nunca mais viu a jovem mãe atrapalhada e derrotada pela mochila do bebê. Nem voltou a sentir o aperto no coração. Ana Maria Sachetto. Jornalista e membro da Academia Santista de Letras.