Durante décadas, tratamos as mortes no trânsito como um “preço inevitável” da mobilidade moderna, chamando colisões de “acidentes”. A Visão Zero, filosofia sueca que molda as cidades mais seguras do mundo, rompe com esse conformismo sob um princípio ético radical: nenhuma morte no trânsito é aceitável. Complementarmente, o Sistema Seguro assume que o ser humano comete erros, mas as ruas não podem ser uma sentença de morte. Engenharia, fiscalização e educação devem ser planejadas para que falhas individuais não resultem em fatalidades. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na nossa realidade urbana, devemos buscar a redução de velocidade por meio de rotatórias, estreitamentos de pista e travessias elevadas. Em um impacto a 30 km/h, um pedestre tem cerca de 90% de chance de sobrevivência. A 60 km/h, essa chance cai para menos de 10%. Trazer a Visão Zero para as ruas de Santos é uma urgência estatística. No primeiro trimestre de 2025, os dados do Detran-SP já apontavam um aumento leve, mas preocupante, na letalidade local, com 11 óbitos registrados na cidade. Já em janeiro de 2026, a Baixada Santista registrou um salto de 50% nas mortes no trânsito em comparação ao ano anterior. O perfil de quem perde a vida em nossas vias é conhecido: jovens entre 20 e 24 anos e, predominantemente, motociclistas. Não podemos falar de futuro sem olhar para as bicicletas elétricas e autopropelidos que inundam nossas ruas e que geram conflitos entre veículos de várias toneladas e condutores de 80 kg. Em uma cidade plana e compacta como a nossa, vocacionada para o caminhar e o pedalar, a integração pacífica e segura entre diferentes modais é o caminho a ser trilhado. Iniciativas recentes dos órgãos executivos de trânsito, como a da CET-Santos com a campanha “No trânsito, seu exemplo ensina” e a do Detran-SP com a campanha “Faz seu corre sem correr”, mostram que o foco na educação e o respeito aos limites de velocidade devem ser pilares inegociáveis. A Visão Zero não é um projeto de um único órgão, é um pacto social. Engenheiros devem projetar vias que perdoem erros, fabricantes devem oferecer tecnologias de segurança ativa, e gestores devem usar o rigor da lei e a precisão dos dados para guiar o comportamento humano. Mudar a nossa realidade exige coragem para priorizar a vida sobre a fluidez desenfreada. O sucesso de uma política de trânsito não deve ser medido por volume de veículos, mas por quantas pessoas chegam vivas em casa ao final do dia.