[[legacy_image_356050]] Isabel. Assim se chamava minha mãe… Pode uma flor colher outra no jardim? A comprovação se dava quando estendia as mãos delicadas para alcançar as rosas perenes e formar o singelo buquê. Guardo a lembrança do vermelho das pétalas, quando os botões se abriam exalando o aroma suave. A cor rubra e exuberante vicejava o ano inteiro! Talvez meu pai tivesse plantado a muda, não tenho certeza, pois quando nasci a roseira quase ultrapassava o muro alto. Meus pais estavam sempre atentos às regas, mas nunca podavam. Seriam adeptos de Burle Marx? Acho impossível, pois com certeza o paisagista seria um ilustre desconhecido dos moradores humildes da Vila Nova, próximo ao Mercado Municipal. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Domingo das Mães... O perfume das rosas no vaso suavizava o cheiro dos assados recheados com farofa de bacon. Papai trazia o pescado fresco e os camarões, que as manas mais velhas descascavam e limpavam. Além da pescada branca recheada de farofa com os crustáceos cozidos, mamãe também preparava uma torta deliciosa de camarão e um cuscuz. O almoço, apesar do trabalho que dava, era imensamente festivo para a homenageada do dia! E bem diferente de hoje, quando muitos encontros se fazem em restaurantes ou em meio a uma rotina muito mais veloz, que nos áureos tempos... Confesso que meus olhos se perdem em busca das rosas, do velho cardápio, da sobremesa regada às conversas leves, do cheiro do cafezinho passado na hora. Ninguém tinha pressa. Tiravam um cochilo no sofá, jogavam cartas, ouviam música. E as rosas perfumosas nos espiavam... A tia-avó contava histórias para os sobrinhos aninhados à sua volta no chão da sala enorme. E nos encantamos ao saber que na Idade Média, por sua beleza, pureza e perfeição em todos os sentidos, a rosa passou a ser o símbolo da Virgem Maria. As rosáceas das catedrais góticas foram dedicadas a Maria como emblema do feminino em oposição à cruz. Os rosários originais eram feitos com pétalas de rosa. Mamãe nos fez perceber que a presença de flores num jardim não apenas adiciona uma estética encantadora, mas também tem um impacto positivo no bem-estar e na qualidade de vida das pessoas. As rosas são clássicas e atemporais, conhecidas por suas flores exuberantes e perfumadas. Rainha por um dia, rainha para sempre! Utilizada desde a antiguidade pela própria Cleópatra e elemento principal do mito de Afrodite, a rosa tornou-se um símbolo universal do amor. Conta a lenda que a bela deusa do amor e da beleza, Afrodite, se feriu com o espinho de uma rosa branca que ficou vermelha, manchada com seu sangue... Até hoje, as rosas vermelhas simbolizam o amor e a paixão, enquanto as rosas brancas simbolizam a amizade, a inocência e a pureza. Hoje, praticante do haicai pela reverência à natureza em constante mutação, vivenciada no quintal da infância, quando ainda ensaiava os primeiros passos, quisera ser enterrada debaixo de uma árvore frondosa, sentindo a brisa, a tempestade, a volta à calma... A floração junto aos antepassados me faria perceber e agradecer o mistério vida-morte/morte-vida. Ah... minha mãe! Com a senhora aprendemos que as rosas falam! E assim compreendo que a minha é única no mundo, e escuto e entendo seus segredos... Neste domingo, mãe, é mais intenso o amor às rosas. Sigo meu destino. Na tua sepultura deixo uma rosa vermelha. E o meu amor... terno e eterno...