Silvio Fernandes Lopes (de terno escuro, à direita) foi prefeito de Santos em duas ocasiões (José Herrera/Arquivo A Tribuna) O tempo de um governante se estende à altura de seus horizontes. Alguns exercem seu mandato com alcance só do seu tempo biográfico, enquanto os raros estendem a influência de sua passagem muito além da sua existência. Silvio Fernandes Lopes, JK santense, faria 100 anos neste 10 de dezembro, mas seu legado ainda nos desafia ser implementando. Eleito jovenzinho em 1957, repetiu o mandato em 1965. Teve carreira parlamentar discreta e seu temperamento era para execução com o tino dum Prestes Maia caiçara. Em 1958, defendia a metropolização da Baixada, que ainda patina como ideal de conurbação. Foi pioneiro na informatização administrativa quando não se sonhava em digitalização. Criou a Prodesan sem imaginar que um dia as PPPs e a economia mista seriam disseminadas. Cordato, foi amigo pessoal de dois adversários futuros: Mário Covas. seu chefe de departamento, e Esmeraldo Tarquínio. Esmeraldo, que o sucederia se não houvesse a truculência da ditadura, comprometera-se a dar continuidade à criação de uma escola técnica para a Zona Noroeste. Um detalhe: a Zona Noroeste surgiu como conceito planejado sob régua e compasso de Silvio, com pronto-socorro e escolas, antes de sua configuração habitada. Agregador, não tinha turma, era maestro de equipe de experts. Num mesmo dia, era capaz de reunir seu líder Adhemar e Prestes num mesmo palanque e despachar com Juscelino no Catete. Na sua última entrevista à brilhante Arminda Augusto, aqui em A Tribuna, confessou mágoa por um equívoco histórico: não foi ele a retirar os bondes de circulação, e sim o general nomeado. Na caudalosa biografia escrita por seu filho Sérgio, meu querido confrade de Academia, revela-se uma determinação: instrução e cultura caminhando juntas. Para cada grupo escolar, um centro cultural nos bairros organicamente desenhados por sua engenharia humana. Campeão de votos, não logrou ser governador por conchavo. Arenista, foi crítico severo do interventor militar. Mentor das duas pontas da ilha, hoje ficaria emocionado com o que se tornaram o Matadouro e as chácaras de machucho da Ponta da Praia. Usina de Asfalto, uma rodoviária digna do turismo. Às obras, imprimia um zelo minucioso. Maior inimigo de um empreendedor, sabia, eram as obras malfeitas. Um gestor tinha que ser um detalhista obsessivo. Assim foi o esmero na Ponte do Mar Pequeno e no Terminal do Tietê, projetados por Silvio enquanto secretário de Obras do Estado. Mas nenhuma obra dispensava do governante a pegada de espírito que a impregnava. Governava pensando na gente que comporia a forma. Silvio forjou as fundações para o futuro. Que agora elas sirvam de inspiração aos acabamentos que o sustentem. *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande