(Unsplash) Modernista às avessas, socialista e cubatense são características raras de pertencer a um escritor que nasceu na Baixada Santista em 1890. Em abril deste ano, completou 60 anos da morte do escritor Afonso Schmidt, tendo algumas obras reeditadas e um coral em Cubatão que o homenagearam. Com 17 anos foi passar o carnaval no Rio e de lá parou em Lisboa, sem passaporte e dinheiro. Aventurou-se pela Europa diversas vezes, até eclodir a Primeira Guerra Mundial e voltar para Santos. Aqui iniciou sua carreira jornalística e suas primeiras publicações: poesia e contos. Imbuído esteticamente, não suportou a Baixada Santista e não teve jeito: mais um artista caiçara que subiu o Planalto e não voltou mais. Escreveu de tudo: poesia, conto, crônica, teatro, romance e ensaio, ultrapassando a soma de 40 livros. Entre Rio de Janeiro e São Paulo passou por diversas redações. Em Santos foi redator em A Tribuna e em outros jornais. Na Rua João Pessoa, 129, publicou crônicas, contos e novelas entre 1930 e 1960. Suas obras foram resenhadas diversas vezes por Álvaro Augusto Lopes, crítico e cronista social santista da A Tribuna nos anos 1940, imortal pela Academia Santista. Schmidt ocupa até hoje a cadeira 138 no Instituto Geográfico e Histórico de Santos. Frequentava formalmente as solenidades, mas enquanto escritor era crítico, rompeu com a Semana de 22 e lançou o Manifesto Zumbi. Era socialista convicto, criou um jornal operário e escreveu sobre a experiência anarquista do Paraná dos ns do século 19 em Colônia Cecília (1942). O seu romance Zanzalá (1928), pioneiro na ficção científica brasileira, completará profeticamente 100 anos em 2028. Em O Tesouro de Cananéia (1941), criticou o jesuitismo do Litoral brasileiro e na Marcha (1945) retratou a vinda dos ex-escravizados do interior paulista que fundaram os quilombos em Santos. No fim, antes de morrer, ganhou o troféu Juca Pato como Melhor Intelectual do Ano de 1963. Faleceu dois dias depois do Golpe Militar em 1964. “Neste momento, a fé, a ciência, a filosofia, as artes e a política vencem um período de turvação correspondente à hora encarvoada que precede à manhã”, escreveu em janeiro de 1964. Imaginem um alemão do Litoral paulista, escritor renomado, fino esteta, ver com seus 73 anos uma ditadura militar se instalar? Viveu na ditadura varguista, é verdade; criticou a censura do Catete, chegou a ser preso como viu Pagu ser também em Santos. Militante do pensamento, corroeu por dentro e viu na literatura sua ponta de lança. Passados 60 anos de sua triste ida, ainda nos resta alguma dúvida da postura schmidtiana? *Douglas Gadelha Sá. Professor de Filosofia, ensaísta e cineasta cubatense