(Unsplash) Faz pouco tempo, era Natal. No amigo oculto do trabalho, cada um escolheu o próprio presente para facilitar a vida de quem fosse comprar. O meu foi As Cartas do Boom, compilação de correspondências trocadas entre Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa entre 1959 e 1975. Livro que não poderia faltar à estante. Folheando as páginas, deparei-me com um ensaio de Vargas Llosa, escrito em 1967: Um conto de Cortázar filmado por Antonioni. Ali estava a ponte. O texto tratava de Blow Up, filme de Michelangelo Antonioni lançado em 1966 e inspirado no conto As Babas do Diabo, de Cortázar. Foi minha pequena serendipidade: a descoberta casual que me levou a compreender melhor o nome da famosa banda santista — inspiração assumida no filme — e que reacendeu reflexões já presentes em duas crônicas recentes, uma delas intitulada Blow Up, outra, Uma imagem noturna. Procurava literatura nas cartas, encontrei a banda em sua origem. A palavra para isso já estava no romance de Ana Maria Gonçalves. Em Um Defeito de Cor, a autora conta que sua obra nasceu de uma dessas coincidências produtivas: estava numa livraria à procura de um guia sobre outra cidade — pensava em deixar São Paulo — quando se deparou com Bahia de Todos os Santos – Guia de Ruas e Mistérios, de Jorge Amado. Ainda de pé, leu o trecho em que o escritor instigava seus leitores a pesquisarem a Revolta dos Malês. Decidiu se mudar para Salvador e escrever o romance que a consagraria. Serendipidade é isso: o encontro imprevisto que só se revela a quem está preparado. Não é o acaso puro, mas o acaso atento. Alexander Fleming não procurava antibióticos quando observou o fungo que eliminara as bactérias em sua placa de laboratório, mas soube reconhecer o que via. Outros talvez tivessem limpado a mesa. Entre uma livraria, um laboratório e um amigo oculto de fim de ano, a lógica parece a mesma. Procuramos uma coisa, encontramos outra — e, se estamos prontos, mudamos de rota. Às vezes nasce um romance de quase mil páginas. Às vezes nasce uma crônica. Às vezes compreendemos melhor o nome de uma banda que encerra, depois de sessenta anos, sua trajetória de sucesso. Nada foi planejado. Mas nada foi totalmente acaso. E eu, que só queria um presente de Natal, acabei ganhando uma teoria. *Marcio Aurelio Soares. Médico e escritor