[[legacy_image_297514]] Há 3 décadas e meia tenho domado meu ID diante de manifestações de diversos especialistas em segurança pública, que ora me tiram do sério, ora me dão preguiça. Parte significativa deles não sabe o que fala. Suas falas simplistas, homogêneas e vazias de conteúdo se assemelham aos primeiros gritos de filhotes de calopsita. Caro leitor, faça aposta na próxima entrevista de um especialista em segurança (especificamente, se o entrevistado não for profissional das forças de segurança) e ganhe dinheiro fácil. Aposte que dirá que "a polícia deve investir em sistemas de inteligência" ou que "a polícia deve prender, não matar”. As mazelas da atividade policial são muitas (aliás, os baixos salários não são a principal delas). Temos o cadenciado retrocesso da legislação penal e processual (avalio sob o ponto de vista do cidadão de bem. Vista sob a óptica do criminoso, nossa legislação é "moderna"), aliado ao pífio apoio que a polícia encontra nas demais instituições públicas e segmentos da sociedade. Mas, por ora, rebatamos as geniais frases mencionadas de especialistas. A polícia (refiro-me à de São Paulo, pois não conheço a fundo a arquitetura das demais), há tempos, possui eficiente sistema de inteligência. São localizados carregamentos de drogas e identificados criminosos. O passo seguinte – a prisão ou a morte de criminosos – depende de "combinar com os russos" (como diria Garrincha, “filósofo futebolístico”), no caso, com os “profissionais do crime”. Pessoas com um fuzil nas mãos e, invariavelmente, com cocaína adubando suas sinapses possuem a natural inclinação a não negociar. O confronto não é escolha arbitrária da polícia, mas decisão deliberada dos criminosos. E o fato de que determinado criminoso morto “não tinha passagens pela polícia”, por si só, não possui qualquer relevância. Ofende a inteligência (ao menos, a minha) a utópica ideia de que todos os criminosos são presos (ou mortos) durante a prática do primeiro delito. Eventuais casos de abuso policial devem ser rigorosamente apurados, mas é patológico se partir da premissa de que, habitualmente, a polícia erra ou se excede. Igualmente descabidas são manifestações que defendem a extinção da polícia. Há uma minoria de advogados que participa do crime organizado, e não é razoável culpar a OAB; há uma minoria de juízes que vende sentenças, e não é adequado condenar ou desacreditar o Poder Judiciário; há uma minoria de médicos que abusa sexualmente de pacientes, mas não é possível demonizar o exercício da medicina. Por que eventuais desvios de conduta de, igualmente, uma minoria de policiais deve condenar a instituição policial à guilhotina? Obviamente, há muito a avançar em relação à segurança pública, mas a polícia não consegue ir além com precário lastro legal e tímida estrutura estatal. Aperfeiçoamento das audiências de custódia, que banalizam a devolução de perigosos criminosos às ruas, e unificação das polícias são alguns exemplos do que é preciso ser feito. Sem o fundamental apoio da sociedade e de políticas públicas estruturantes, só alcançaremos desejáveis níveis de segurança em caso de pura serendipidade.