Na escola se passa boa parte da vida, desde a infância até o final da adolescência. Vida que será marcada por primeiras experiências. Há fatos que ficam na memória e outros, usando linguagem poética, vem do coração. O encontro de professores e eventuais substitutos, no chamado Conselho de Classe, uma vez por semana, põe à vista casos como este que aqui registramos. Durante um desses Conselhos, um professor contou que um ou dois dos quatro filhos tinham feito algumas estripulias. Ele, em casa, mandou os quatro tirarem a roupa e ficarem de costas na parede, com as mãos acima da cabeça. Usando um cinto, bateu neles... Após contar o caso, foi censurado por corrigir os filhos de maneira cruel, até pela faxineira que entrou na conversa. Certa noite, quando eu dava aulas no então Instituto Municipal de Comércio, para completar carga horária, ia para casa de táxi e, como esse funcionário morava perto da minha casa, oferecia uma carona para ele economizar tempo e dinheiro, com conforto. Durante uma dessas caronas, ele novamente contou o caso em que bateu nos quatro filhos com o cinto. Esse homem não tinha preparo para ser um pai educador. Décadas depois, encontrei esse homem novamente, perto da praia, com ar de quem não sabe aonde ir; estava vestido com uma roupa limpa e me perguntou se eu me lembrava dele. “Sim, lembro”, respondi. Ele me contou: “Pois é, a juíza me tirou o direito de receber minha aposentadoria e quem está recebendo é um dos meus filhos. Você não acha que ela errou?” Para não entrar em discórdia entre ele e o filho, respondi: “Ela deve ter tido suas razões”. Ele me pediu: “Você me empresta R\$2,25 para pagar o ônibus, que eu te pago amanhã?” Dei o dinheiro como perdido, pois ele continuava morando a curta distância da minha casa. Passado algum tempo, tive a oportunidade de encontrar um dos filhos dele; perguntei pelo pai e comentou que era ele quem recebia a aposentaria. Assim, o homem que, na idade adulta, tinha castigado duramente os filhos, agora dependia de um deles para viver com dignidade. Para pensar: aquele que é pai, aos vinte e poucos anos, daqui a cinquenta, se não houver nenhuma interferência fatal, dependerá do filho que reconheceu, sustentou e educou e, como nesse caso... duramente castigou na infância. Então, ser filho também é missão para sempre. *Mestre e doutora em História Social, historiadora e professora da Universidade Católica de Santos (UniSantos)