(Luigi Bongiovanni / Arquivo Pessoal) Deita à Serra como um sopro quente, nasce no coração do planalto, atravessa a cidade e, sem pedir licença, entrega-se ao mar, inteiro. É Noroeste santista, mensageiro de chuvas e lembranças de que nada permanece... Sei, essa lufada não conhece fronteiras e muitos dirão, ele morre no oceano, mas eu digo que não, pois acredito nos sílfides cruzando o Atlântico, espíritos do vento, levando histórias invisíveis e credíveis, pousando em Tarrafal, no concelho de Cabo Verde, terras das tarrafes, planta rasteira resistente à seca e a salinidade; joia rara de praias brancas, dos tempos pesados do pretérito e onde a batucada faz o chão tremer. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Lá viveu Nhá Bibinha, mulher de voz firme, rainha do batuque, do finason, tradicional canto improvisado, batuku, como nos lembra Tomé Varela da Silva em seus livros sobre a tradição oral cabo-verdiana; não falava, cantava e no canto improvisado denunciava injustiças, celebrava resistências, ensinava que a vida é luta e poesia, “Quem planta justiça no chão/colhe liberdade pra si” e assim soava o finason, filosofia cantada; a palavra tornava-se ritmo, ficava nas recordações, adormecia na saudade. Sua presença confundia-se com o solo vibrante do som ecoante dos tambores, cada improviso passado às novas gerações, no concelho marcado por duras épocas, fez dela um símbolo de dignidade, dor transformada em canção e esperança, ali mesmo entre as tarrafes e as águas salgadas, lugar guardião de segredos. Senhora atemporal, espírito vivo, para nunca esquecer, a luta é beleza e a autonomia se aprende no compasso da música e do verso. O Noroeste santista e o finason de Tarrafal, um sopra quente anunciando tempestade, o outro um canto de emancipação, ambos lembram, o mundo gira em contramão, nada é eterno, tudo renasce e as duas localidades, como nações separadas pelo mar salgado de Pessoa, guardam semelhanças da vida, ambas respiram o sal do Atlântico, alimentam-se das ondas, o ritmo vibrante cabo-verdiano ecoa no samba e nos tambores brasileiros, reminiscência das distâncias que não dividem, juntam destinos, histórias, passados e futuros, Voltando ao sopro Noroeste, nosso vento vermelho, carregado de poeira e fogo, vestígio da terra que respira e sangra, corrente de ar intenso, pinta o horizonte com tons de tenacidade e paixão, não é apenas fenômeno, atravessa fronteiras invisíveis recordando narrativas antigas, como se o próprio ar guardasse a coragem. Quando o Noroeste sopra aqui, penso em Nhá Bibinha, do outro lado do oceano, posso dizer, dama da cultura, da melodia e mãe da poesia, ícone imortal feita de ciclos, de perseverança, gerando os novos ares. Há quem dera houvesse um prenúncio, pequeno que fosse, vindo do âmago e fizesse os homens entender que não são a cor, a religião, os ideais, classes sociais, nem instrução escolar, mas a humanidade que nos une. Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais e membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios.