Foto ilustrativa (Sílvio Luiz/ AT) Nem de longe sou especialista em trânsito urbano. Sou, no máximo, um sobrevivente eventual das ruas, e olhe lá, porque continuo achando que a melhor forma de circular pela cidade é a pé. Pelo menos, caminhando, a pessoa só precisa enfrentar buracos, desviar obstáculos e ter a eterna disputa com motos sobre a faixa de pedestres. Já no carro, o adversário principal de hoje atende pelo nome de semáforo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nos últimos tempos, o funcionamento dos sinais de trânsito em Santos tem se transformado em um eficiente produtor de irritação coletiva. Em uma modestíssima pesquisa de campo (sem critérios científicos), conversando com amigos, conhecidos e uma legião de motoristas de Uber, o diagnóstico é unânime: a indignação já ultrapassou a fase da reclamação civilizada e entrou com força no território da raiva, da buzina e dos impropérios dirigidos ao poder público. Há algum tempo, anunciou-se com entusiasmo a implantação de um ‘sistema inteligente’ para coordenar os semáforos da cidade. Pelo que se comenta, trata-se de uma tecnologia sofisticada, centralizada no CCO, o Centro de Controle Operacional, onde imagens e dados de toda Santos seriam analisados em tempo real. Segundo as fofocas, a tal inteligência artificial frequentemente acaba vencida pela mais antiga e imprevisível das tecnologias: a intervenção humana. Basta que um operador resolva priorizar determinado corredor por causa de uma obra, um evento ou qualquer outra emergência, e pronto: toda a sincronização de um bairro pode ir pelos ares. É o famoso efeito cascata. Um semáforo trava aqui, outro fecha ali e, quando se percebe, metade da cidade está parada, contemplando um sinal vermelho que parece ter assinado contrato vitalício com o poste. E aí entra outro problema: a falta de transparência. Afinal, quem decide quanto tempo da vida do cidadão será consumido diante de um semáforo fechado? Qual é a lógica? Existe um critério técnico claro ou o algoritmo está apenas jogando ‘uni-duni-tê’ com os bairros da cidade? Se a tecnologia existe, se custou caro e se foi vendida como solução moderna, seria razoável esperar que os resultados aparecessem nas ruas. Porque, até aqui, o que se vê é um sistema que, no papel, rege como um maestro da mobilidade urbana; mas, no asfalto, rege a cidade como quem distribui buzinas, filas e sinais vermelhos ao acaso. As intenções podem até ter sido boas. Mas, no trânsito, como se sabe, intenção não abre sinal. William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor