O escritor Costa e Silva Sobrinho, em A Tribuna de 12 de janeiro de 1964, assim se refere ao Forte de Nossa Senhora do Monte Serrat: “Uma das primeiras belezas da história de Santos, há muito desaparecida, foi edificada sob a invocação de Nossa Senhora do Monte..." (Vanessa Rodrigues/AT) Nossa Senhora do Monte Serrat tornou-se padroeira de Santos em 1955, mas tem o seu nome associado a um fortim construído por Braz Cubas, provavelmente na mesma época da inauguração do primeiro prédio da Santa Casa da Misericórdia de Santos (1543). O fortim não deixou qualquer vestígio, mas merece algumas ‘pinceladas’, sobre a sua emblemática história. Martim Afonso de Sousa, após dois anos reconhecendo o litoral da América do Sul – da foz do Rio Amazonas ao Rio da Prata –, deu início à colonização oficial do Brasil, em 1532, ocupando a Baía de São Vicente. A Baía tem ainda dois fatores preponderantes para dar o início à projeção oficial do poder colonial de Portugal na sua extensa colônia sul americana: a fonte de água doce da ‘biquinha’ do Morro dos Barbosas e a proteção natural da ‘Garganta do Diabo’ situada entre a Ilha Porchat e a área continental. A dificuldade de acesso para navios oceânicos, pelos perigos de danos nas enormes quilhas de compensação das velas, protegia a vila de São Vicente contra o troar dos canhões dos piratas, dos corsários e de outras nações colonizadoras, mas deixavam expostos os navios que fundeavam na embocadura do Estuário de Santos. As pessoas, com os seus pertences, seguiam em pequenos escaleres ou caminhavam pela areia até alcançar a Vila de São Vicente. A Guerra de Iguape (1534 a 1536), com invasão e saque na Vila de São Vicente por corsários espanhóis vindos do Sul, motivou o fidalgo português Braz Cubas a transferir o fundeio de embarcações para a região do lagamar de <CW-12>Enguaguaçu, próximo à foz do Rio Itororó e longe do mar aberto. Em 1543, fundou também a primeira Santa Casa da Misericórdia do Brasil, antes mesmo da elevação da nova povoação à categoria de Vila de Santos, com foro datado de 1º de novembro de 1546. De imediato, também, mandou erguer o Fort</CW>e de Nossa Senhora do Monte Serrat, santa católica que viria a ser a padroeira da cidade de Santos. O escritor Costa e Silva Sobrinho, em A Tribuna de 12 de janeiro de 1964, assim se refere ao Forte de Nossa Senhora do Monte Serrat: “Uma das primeiras belezas da história de Santos, há muito desaparecida, foi edificada sob a invocação de Nossa Senhora do Monte, a grande protetora até hoje da nossa terra e da nossa gente (...). Esse pequeno reduto voltado para o Porto de Santos foi demolido em 1876 para dar lugar ao prédio da Alfândega”. Segundo Victor Hugo Mori, arquiteto do Iphan, suas pedras também foram usadas para a construção dos primeiros metros do cais do Porto de Santos. O pequeno fortim de Nossa Senhora do Monte Serrat foi a única fortificação construída na Ilha de São Vicente, no Século 16, mas não deixou qualquer vestígio arquitetônico. A santa católica tornou-se, porém, a padroeira da cidade de Santos, mais de quatro séculos depois (1543 – 1955). A falta de um referencial indicativo de que Santos teve o primeiro fortim do Brasil destruído para a criação do Porto Organizado me parece uma falha histórica lamentável. O antigo forte, talvez primeiro do Brasil, infelizmente não deixou uma pedra sequer que pudesse ser exposta ao público, hoje em dia e para as gerações futuras. As extintas muralhas de pedras, guarnecidas com canhões coloniais manobrados por homens defensores da Vila de Santos simplesmente ‘sumiram’, sem deixar vestígios (parafraseando o amigo Adler Homero Fonseca de Castro, historiador do Iphan). Talvez os nossos arqueólogos, algum dia, saiam em busca de alguma ‘relíquia’ que comprove este breve relato histórico. * Elcio Rogerio Secomandi é membro da Academia Santista de Letras.