(Reprodução) Permanece o escândalo causado pela agressão e morte do cão Orelha, encontrado agonizando em praia de Florianópolis após ter recebido diversas pauladas na cabeça. Quatro jovens são suspeitos, havendo acusações contra parentes de terem pressionado testemunhas e autoridades que estariam sendo coniventes. Em Praia Grande, a cadela comunitária Neguinha foi encontrada com vários ferimentos provocados por faca, bastante ensanguentada e depois submetida a uma cirurgia. A autoria também é investigada pelas imagens de câmeras de segurança. Não há quaisquer informações de ataques dos animais e é possível tratar-se de agressão gratuita – contra os suspeitos de Santa Catarina pesam outras ocorrências violentas contra animais e humanos. A violência contra animais merece muita atenção da parte de pais, educadores, sociedade e legisladores. Em primeiro lugar, pelo direito dos animais, consideração que devemos a eles como seres vivos pródigos em dedicação, respeito e afeto a seres humanos muito mais amplos e profundos que a consideração recebida de nossa parte. Animais são muito mais fáceis de amar que os seres humanos, mas têm sido vistos também como mais fáceis de odiar. Para uma humanidade tão entorpecida por agressões contra qualquer diferença, para um Brasil que é líder mundial em assassinatos de pessoas trans, que vem escalando exponencialmente o racismo, a intolerância religiosa e o feminicídio, a relação com os animais deveria servir como fundamental diagnóstico em saúde mental. Violência não é fenômeno repentino. Agressores dão sinais de desequilíbrio desde a infância, muitas vezes contra animais, por entenderem que a falta de consequências legais e sociais é uma espécie de autorização para barbaridades. A atitude frouxa de família, amigos e da sociedade está na origem dos maus-tratos a animais, que frequentemente escalam para formas cruéis, ainda com animais ou já contra seres humanos. Precisamos ficar alertas como pessoas que fazem exames periodicamente, doenças fatais diagnosticadas precocemente tornam-se curáveis. Além de mecanismos que facilitem denúncias, é urgente estruturar legislação clara, campanhas de sensibilização e disponibilização de serviços com respostas rápidas, tanto no campo da punição quanto junto à rede de saúde mental. Nossa sociedade está gravemente doente. Negligenciar sintomas agudos como esses só agravará futuras violências, sendo previsíveis novos e sucessivos escândalos. A única homenagem que faz realmente sentido a esses companheiros assassinados é que suas mortes sirvam à estruturação de sistemas de atenção com mais atendimento a nossos animais tão humanos, mas também mais punição e atendimento aos nossos humanos tão animais. Superemos a surdez assassina, sejamos todos Orelha! *Maurício de Araújo Zomignani. Assistente social judiciário, palestrante e autor de livros