Quando completamos os 60 anos que dão título a este artigo, sem perceber nos tornamos mais reflexivos. Percebo, por exemplo, que não apenas herdei o sobrenome de meu pai, mas também o gosto por leitura. Apesar de não ser grande leitor como ele, acumulei conhecimentos, de tudo um pouco, razoavelmente acima da média da população. Muito também por escolhas certas na internet. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Sobre os valores oriundos dessa fonte de informações digitais, também reflito um pouco. Indigna-me o crescimento de defensores dos valores machistas ‘red pill’ que buscam o retorno do nazifascismo. Há também os mentecaptos que ainda defendem a ditadura civil-militar que afundou o país no obscurantismo de 1964 a 1985, querendo repeti-la hoje. Trazendo essa reflexão para o ambiente familiar, vejo claramente, ao lado de minha esposa, nesses nossos 40 anos de convívio e 37 de matrimônio, que felizmente a mediocridade não nos contaminou. Produzimos uma família proporcionadora de vivências que desejo compartilhar neste curto texto, certo de que a mesma realidade é comum a muitas famílias Brasil e mundo afora. Tenho o hábito de, aos sábados, caminhar até a casa dos meus pais, octogenários, com problemas de saúde e por isso sempre acompanhados de cuidadores. Lá chegando, sinto o silêncio que caracteriza o ambiente. Mesmo tendo acompanhamento de saúde, ambos estão bem frágeis. Converso com eles, mas o que caracteriza esses momentos é a calmaria. Após a rápida visita, ao retornar, passo na casa de meu filho, onde está à minha espera um neto de três anos e uma neta de seis. O remanso ensurdecedor de meus pais se transforma. Quando pergunto, estendendo a palma da mão direita para baixo, ‘quem quer ir ao mercado comigo comprar sorvete bate aqui’, o repouso da casa dos meus pais vira algazarra. Ao retornar com meus netos, bebo um copo d’água e vou para casa com a seguinte conclusão: a zoeira infantil é mais alegre que o sossego da ancianidade. E olha que sou apaixonado pelo silêncio, pois possibilita a reflexão. Ao chegar em casa, percebo o quão privilegiado sou pela caminhada me possibilitar a visita aos extremos de minha família. Regalia não usufruída por todos nesta sociedade injusta e desigual. Tenho a tristeza de ver minha bela irmã passando por problemas de saúde. Há também o desalento de minha esposa que, filha única, perdeu a mãe aos 25 anos de idade. Hoje ela tem mais convívio comigo do que teve com sua mãe. Ao fim e ao cabo, o convívio familiar é a força que tenho hoje para viver. O que desejo é que todos tenham essa mesma força.