(Reprodução Instagram) Na homenagem que fez a Sebastião Salgado em sua rede social, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, escreve: “Salgado era um apaixonado por Paris. Ele amava esta cidade intensamente. E era todas as manhãs, ao longo do Canal Saint-Martin, que ele a respirava. Esta cidade era sua”. Sebastião Salgado vivia com a família num apartamento, perto da Place de la Bastille, cercado por seu acervo composto por 500 mil imagens. A vinte minutos dali, na Rue de l’Arcade, 17 — no tradicional Hotel Bedford —, dom Pedro II viveu os seus últimos dias de vida. Era 1891 e fotografias daquela época registraram o pomposo cortejo fúnebre e as honrarias de chefe de Estado que a capital francesa prestou ao, então, imperador deposto do Brasil. A Paris que hoje se emociona com a morte de Salgado, obviamente, não é a mesma que se despediu de dom Pedro II. São dois momentos distintos separados por 134 anos de história. Porém, esses dois brasileiros têm muito mais em comum do que os anos que viveram na Cidade Luz e o amor que sentiram por ela. Para ambos, a cidade de Baudelaire guardava a chave da liberdade, do autoconhecimento, da ressignificação pessoal, de uma vida nova. Perseguidos pelo regime militar, Sebastião e a esposa Lélia Wanick Salgado exilaram-se em Paris em 1969. Na terra das revoluções, ele aprendeu que um clique poderia transformar tudo ao redor. Dom Pedro II também viveu exilado às margens do Rio Sena. Chegou em 1890, meses depois da Proclamação da República. Apesar dessas coincidências, sem dúvida, a fotografia é a maior afinidade que podemos encontrar entre Pedro e Sebastião. O interesse do imperador pela fotografia surgiu nos trópicos quase simultaneamente à invenção do daguerreótipo, primeiro processo fotográfico a ser anunciado e comercializado. Menos de um ano após o anúncio oficial da descoberta, em agosto de 1839, ele adquiriu sua própria câmera em março de 1840. Entre 1871 e 1888, o último imperador do Brasil visitou os Estados Unidos, o Oriente Médio e passou por toda a Europa. Foram três anos e sete meses inteiros viajando ao redor do mundo, que lhe renderam um valioso acervo fotográfico. Ele sonhava usar as fotografias para instruir o seu povo. Sebastião Salgado se descobriu fotógrafo na segunda metade do século passado em Paris. Começou a carreira na África com a câmera emprestada de sua esposa. Referência global na fotografia documental, reconhecido por suas imagens que abordam temas comunitários, ambientais e históricos de grande impacto. Muitas vezes com o objetivo de denunciar injustiças e problemas sociais. Recuperar o imperador considerado também uma figura humanista, conhecida por seu interesse na educação, ciência, filosofia, além de sua fugaz passagem por Paris e sua paixão pela fotografia, mais do que realçar as afinidades entre o monarca e Sebastião Salgado, serve para lembrar que é preciso coroar esse gênio nacional, um dos herdeiros — se trono houver — do Império Universal da Fotografia. *Lucius de Mello. Doutor em Letras, autor da tese A Bíblia segundo Balzac: Deus, o Diabo e os Heróis Bíblicos em A Comédia Humana, jornalista, escritor e finalista do Prêmio Jabuti em 2003