Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria concorre ao Oscar em apenas uma categoria, a de Melhor Atriz, para Rose Byrne (Divulgação) Há tempos eu aproveito o início do ano para ver todos os filmes que estão concorrendo na categoria principal do Oscar. Mas em 2026 resolvi ser um pouco mais audaciosa e incluí também todos os títulos que estão disputando qualquer categoria do prêmio. Isso coloca alguns filmes que definitivamente não curto na minha lista para assistir, como Jurassic Park, Avatar e A Hora do Mal, mas resolvi encarar o desafio e tive algumas boas surpresas, como o norueguês A Meia-irmã Feia, concorrendo a Melhor Maquiagem e Figurino, além de muitos documentários que tocaram meu coração. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas minha maior surpresa foi Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, que concorre em apenas uma categoria, a de Melhor Atriz, para Rose Byrne. O filme mostra, de forma ansiosa e angustiante, a vida de uma mulher que é o estereótipo de tudo que se fala quando o assunto são pautas femininas. Aqui já aviso que tem spoiler pela frente, mas eu continuaria a leitura mesmo assim. O filme começa com a versão “mulher-mãe” e, aos poucos, revela que sua filha tem algum tipo de desordem alimentar que a obriga a usar um tubo de alimentação em um buraco na sua barriga (a “mulher-cuidadora”). De forma metafórica, um enorme buraco se abre no teto do quarto principal da casa, inundando o apartamento delas de tal forma que é necessário se mudar para um hotel. Onde está o marido neste momento? Ausente, na terceira de uma viagem de oito semanas, mas presente pelo telefone dando ordens de como resolver o problema da casa (“mulher-dona de casa”), além de supervisionar o tratamento da filha. A doença da filha a permite controlar tudo que entra em seu corpo, enquanto a mãe só perde o controle. A menina a acha maleável (manipulável), e ela descobre que realmente o é. Já seu marido a acha exagerada e pouco responsável. Diariamente, a personagem deixa a filha na escola e parte para o trabalho como terapeuta, revelando a “mulher-profissional”. Aliás, no mesmo lugar, faz terapia com um colega homem e ouve dele coisas que simplificam sua situação ao invés de ajudá-la a atravessar os problemas. Interessante é que, na sua prática, ela reproduz esse modelo com uma paciente que acabou de virar mãe, propondo-a que se coloque em primeiro lugar, deixe o bebê chorando e vá cuidar um pouco dela, para tirar um momento e respirar antes de voltar ao caos. Sua paciente acaba mesmo sumindo e deixando o filho na sala de terapia, um reflexo do que nossa personagem principal secretamente gostaria de fazer. Em um dos momentos mais angustiantes do filme, ela grita para seu terapeuta: “Eu só quero alguém que me diga o que fazer” e, na ausência de respostas por parte dele, acaba chegando à conclusão de que o tempo é uma sucessão de coisas a serem superadas. Sem mais spoilers, assim como muitas outras mulheres, depois de múltiplos pedidos de ajuda, de diferentes formas e para diferentes pessoas, o filme caminha para a convicção de que tudo se resolverá por conta própria. Ou será apenas a própria desistência da personagem? Renata Seldin. Mentora de carreiras, doutora em Gestão da Inovação, palestrante e autora de As Perdas no Caminho: Em Busca de uma Família.