(Vanessa Rodrigues/AT) Se essa rua voltasse a cantar, seria com a voz do vento atravessando as esquinas, o compasso dos passos guardados nas calçadas antigas, o perfume do pão quente na padaria de madrugada. Cada janela fechada seria uma nota esquecida. Cada pedra, um verso gravado no chão da cidade. Quem passa apressado não percebe que o Centro Histórico é um coração. E ele está cansado de bater sozinho. Nos dias de festa, tudo parece perfeito: luzes, turistas, flashes. Mas quando a música para, o silêncio corta as ruas como ferida aberta. Fachadas se fecham, casarões suspiram e praças viram refúgio dos esquecidos: idosos que buscam companhia, crianças sem espaços seguros e famílias expulsas pela especulação que transforma casas em hospedagens temporárias. O Centro Histórico não pode ser apenas vitrine de eventos nem cenário de selfies. Uma praça que só existe no feriado não é praça. Um bairro sem moradores morre devagar, pedra por pedra. É preciso vida diária: moradia digna, comércio de bairro, serviços acessíveis, cultura viva. Tombar não é paralisar. O tombamento protege a história e permite novos usos quando há informação, planejamento e vontade. Em cidades do mundo inteiro, prédios históricos abrigam casas, restaurantes, bibliotecas e centros culturais. Falta conhecimento, não licença para viver. Pertencimento nasce na educação. Crianças e jovens precisam saber por que aquela praça existe, o que aquela igreja representa e por que aquela calçada deve ser preservada. Caminhos existem, mas pedem continuidade: planos, orçamento, mobilidade ativa, transporte público de qualidade, acessibilidade plena e compromisso social. Cartagena, Alfama e até exemplos nacionais mostram que é possível equilibrar turismo e vida cotidiana sem expulsar quem faz a cidade acontecer. Cuidar do Centro é cuidar de vidas. Segurança não é afastar, é integrar. Centros históricos não podem ser ruínas belas nem museus fechados. Precisam pulsar todos os dias com cheiros, sons e gente. Se puder, amanhã caminhe sem pressa. Cumprimente um vizinho. Compre um pão na rua de trás. É assim que o coração da cidade aprende nosso nome. E quem sabe um dia essa rua volte a cantar. *Alessandro Lopes. Arquiteto, urbanista, mestre em Direito Ambiental e pesquisador em Cidades Criativas e Inteligentes