(Nirley Sena) A recente troca de declarações entre os prefeitos de Praia Grande, Alberto Mourão (MDB), e de São Vicente, Kayo Amado (Pode), sobre a distribuição de vagas pelo sistema Cross escancara uma discussão que nunca deixou de existir na Baixada Santista: até onde vai a autonomia municipal quando o problema é regional? A saúde pública talvez seja o maior exemplo de que as fronteiras entre as cidades da Baixada são meramente administrativas. Na prática, a população vive e circula de forma integrada. O morador de uma cidade trabalha em outra, estuda em uma terceira e, muitas vezes, precisa buscar atendimento médico onde houver estrutura disponível. Essa é uma realidade consolidada há décadas e que exige maturidade política e gestão compartilhada. O Cross nasceu justamente com esse propósito: organizar a oferta de serviços especializados e equilibrar a distribuição de atendimentos. Não é um sistema perfeito, mas uma ferramenta essencial para evitar o colapso do atendimento em determinadas cidades e garantir que a população tenha acesso aos serviços de saúde, independentemente do município de origem. Quando gestores transformam divergências técnicas em embates públicos, o debate perde profundidade e ganha contornos políticos que pouco contribuem para a solução dos problemas reais. É compreensível que cada prefeito defenda os interesses da sua população. Isso faz parte do papel institucional de qualquer gestor. No entanto, quando se trata de saúde regional, defender apenas o próprio território pode significar fragilizar todo o sistema. Durante o período em que tive a oportunidade de estar à frente da Agência Metropolitana da Baixada Santista (Agem), ficou claro que os avanços mais significativos ocorreram justamente quando houve articulação entre os municípios. A governança metropolitana não é um conceito teórico. Ela é uma necessidade prática, principalmente em áreas estratégicas como saúde, mobilidade urbana e desenvolvimento regional. O que está em jogo não é apenas a divisão de vagas, mas a capacidade da região de planejar o futuro da assistência à saúde. A Baixada Santista enfrenta crescimento populacional, envelhecimento da população e aumento da demanda por atendimentos especializados. Nenhum município, isoladamente, terá estrutura ou recursos suficientes para enfrentar esses desafios. A solução passa inevitavelmente pelo fortalecimento do diálogo técnico, pelo planejamento integrado e pela construção de consensos. Divergências fazem parte do processo democrático, mas precisam ocorrer nos fóruns adequados, com responsabilidade institucional e foco no interesse coletivo. A população da Baixada Santista não espera disputas políticas. Deseja atendimento, eficiência e respeito. E isso só será possível quando os gestores compreenderem que, na saúde pública, ninguém resolve sozinho aquilo que é, por natureza, um desafio regional. A Baixada Santista já mostrou diversas vezes que sabe trabalhar de forma integrada. O momento atual exige que essa capacidade volte a prevalecer. Afinal, quando há união entre os municípios, quem ganha é toda a região – principalmente, o cidadão. *Milton Gonçalves. Ex-diretor Executivo da Agência Metropolitana da Baixada Santista (Agem)