<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-end="467" data-start="133" dir="auto">A quietude dos meus pensamentos trouxe a latente e silente saudade. Ela chegou como uma realidade que se impõe e logo vem a marcar presença. Seu sinal instala-se no corpo, na memória, quase sem pedir licença. Mostra o seu grifo indelével e, mesmo quando o tempo insiste em avançar, pode permanecer aparentemente quieta, sem respostas.</p> <p data-end="1120" data-start="469" dir="auto">Curioso perceber como um sentimento tão sutil no nome carrega tamanha força. Basta um cheiro de café fresco, o som de uma música antiga ou o sabor de uma comida de infância para que tudo retorne com clareza. Abre-se na nossa intimidade e revela o que estava guardado, aparecendo por inteiro, sem ornamentos, apenas com a sua inverossímil verdade. Não precisa da poesia nem de quaisquer outros ornamentos para existir e mostrar que está dentro de nós. Ela é o testemunho da vida que já foi vivida, mas sempre relembrada, em exultações que trouxeram um enorme bem-estar ou, até, em contrapartida, deixar transparecer as diversas e inesperadas angústias.</p> <p data-end="1819" data-start="1122" dir="auto">O sentido da palavra nos mostra raízes profundas e transformadoras. Vem do latim, do galego-português, do árabe. O termo vai além do sentimento de tristeza, pois o que foi vivido teve valor e deixou marcas de amor e carinho na nossa memória. Apetece-me senti-la sempre por aqui, nos odores das memórias, nos sons e sabores que trazem de volta rostos, reencontros e desencontros, anseios invisíveis na borda e no transcorrer do tempo. A saudade é presença concreta. Instala-se no dia a dia e nos lembra que o passado continua sempre em nossas lembranças, vivo. Estou a caminhar com ela como quem carrega uma mala que nunca se esvazia, porque está repleta de recordações que jamais serão esquecidas.</p> <p data-end="2075" data-start="1821" dir="auto">A saudade não é apenas dor: é também a certeza de tudo o que já foi, pode e deve continuar presente, como memória latente que insiste em permanecer, como a sombra que acompanha o corpo, mesmo quando o sol já cede seu lugar às estrelas, no final da tarde.</p> <p data-end="2748" data-start="2077" dir="auto">Assim é a saudade, a se apresentar, sempre, como a grande, boa e inevitável companheira. Não é ausência; é permanência. Não é vazio; é a plenitude de lembranças. Eu, habitante e aprendiz desse território no qual habito, vou pelos caminhos costumeiros, ciente daquilo que foi e do que ainda estou percebendo, a partir das minhas experiências de vida, de convivências saudáveis por extensão e de numerosos compartilhamentos nos quais a saudade continuamente se aplaca. Ela sempre consegue estar presente na caminhada do tempo e, com o desenrolar dos anos, transforma em silêncios os intensos e arriscados ruídos, considerando as minhas ligeiras ou intermináveis concepções.</p> <p data-end="2775" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2750" dir="auto">*Maurilio Tadeu de Campos</p>