(José da Silva) “A Cidade amanheceu toda enfeitada naquela quinta-feira. Junto às pontes dos canais havia ornamentos e flores. Por toda a parte, bandeirolas coloridas agitavam-se, embaladas por um vento leve e o sol forte ajudava a espalhar o ar de festa na Cidade inteira. Começava a nascer o dia 25 de abril de 1912, e todos se preparavam para assistir a mais um acontecimento importante da história do Município. Era o dia da inauguração do sistema de esgotos e de águas pluviais de Santos, o mais avançado do Brasil”, descreveu o engenheiro Lourenço Baeta Neves, em 1912. Esse episódio complementou outros que aconteceram quando Santos passou a contar com a mente brilhante de Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, considerado Patrono da Engenharia Sanitária no País, um homem notável com olhos tímidos, porém atentos aos acontecimentos do mundo e um bigode volumoso, época em que se associava esse tipo de bigode à figura do homem sábio. Confesso que desde o estudo de sua obra me apaixonei pela inteligência do engenheiro nascido em 1864, em Campos dos Goytacazes (RJ), e que foi convidado a atuar em Santos por seu trabalho inovador no saneamento urbano. E não é para menos. Assim como o passarinho joão-de-barro vai moldando seu ninho, Saturnino, com sua perspicácia e cálculos extremamente precisos, foi traçando o destino de Santos ao patamar de excelência no saneamento, juntamente com o médico sanitarista Oswaldo Cruz. Grandes obras de saneamento se iniciaram entre 1903 e 1927. A construção do primeiro canal (Canal 1) em 1905 e sua inauguração em 1907 marcaram o fim de alagamentos e epidemias. Esse grande momento que mudou a vida dos habitantes de Santos foi registrado pelo fotógrafo José Marques Pereira. E a construção de mais canais foi avançando e atravessando a cidade, do Centro até a praia, acabando com insalubridade e sujeira, trazendo prosperidade e surgimento de bairros. O ilustre engenheiro sempre foi alvo de estudos e divulgações. Na oportunidade em que foi educador das graduações História e Geografia na antiga escola municipal Acácio de Paula Leite Sampaio, o escritor Maurílio Tadeu de Campos foi um grande incentivador de pesquisas e trabalhos sobre Saturnino na formação de futuros professores. Em 2010, os cineastas Carlos José de Oliveira e Madeleine Alves dos Santos lançaram o documentário intitulado Os Canais de Saturnino. Na literatura, a escritora Eunice Tomé relatou sobre a importância dos canais para a Cidade em uma de suas crônicas. Em 2025, “Impossível viver sem eles” é a crônica sobre os canais no livro Olhares Simples e Complexos, da escritora Taís Curi. E ainda o exímio pesquisador Edson Santana do Carmo apresentou Saturnino de Brito em palestras na Fatec e Casa das Culturas. E Saturnino ainda foi o idealizador de nosso maior jardim de orla de praia do mundo, reconhecido no Guinness Book. Obrigada, Saturnino de Brito! *Míriam Santiago. Jornalista