Recentemente, uma pessoa jovem me perguntou o que era o Sarau dos Pensadores, da Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande. A pergunta parecia simples. Não era. Ela queria saber não apenas o que acontecia num sarau, mas qual era a essência daquele encontro. Hoje, quando se fala em sarau, imaginamos um espaço aberto à poesia, música, dança, teatro e outras manifestações artísticas. Mas nem sempre foi assim. Durante muito tempo, esses encontros eram reservados a clubes, associações e residências de artistas e intelectuais. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em Praia Grande, lembro-me das reuniões na Casa do Poeta, na residência de Leni Morato, na casa de Elza Lemke Batalha e do Grupo de Sarau Lupel, de Pepita de Souza Figueiredo e Ludimar Gomes Molina. Enquanto isso, na periferia de São Paulo, a poesia saía dos espaços convencionais e encontrava novos palcos e vozes. Nesse movimento, Sérgio Vaz se tornaria referência com o Sarau da Cooperifa. Como diz o poeta praiagrandense Nego Panda, “a periferia tem palavra”. Talvez essa seja uma das definições bonitas de um sarau: um lugar onde alguém que quase nunca é ouvido descobre que também tem voz. Foi com esse espírito que nasceu, em 2007, o Sarau dos Pensadores. Sua primeira edição aconteceu no Restaurante Netuno, na Cidade Ocian, em Praia Grande. O desejo era simples: criar um espaço onde qualquer pessoa pudesse chegar, fosse artista ou apenas alguém disposto a ouvir. Durante anos soube de Sérgio Vaz sem conhecê-lo. Minha amiga Emília falou-me de um poeta da periferia que eu precisava conhecer. Naquele tempo eu morava na Água Funda e minha vida passava pelos campos de várzea. Joguei como lateral-direito e depois fui técnico do Parque do Estado Futebol Clube. Às vezes me pergunto: será que, em algum daqueles domingos, Sérgio Vaz estava por ali? Talvez jogando ou assistindo. Quem sabe tenhamos trocado alguma palavra sem imaginar que, anos depois, nossas trajetórias seriam aproximadas pela poesia. Gosto dessa possibilidade: dois homens pelos mesmos territórios, sem saber que a poesia construiria uma ponte entre ambos. Ele ajudando a transformar o sarau em voz da periferia. Eu, anos depois, inspirado também por aquele movimento, ajudando a criar em Praia Grande o Sarau dos Pensadores. Quando aquela jovem me perguntou o que era o Sarau dos Pensadores, eu poderia ter respondido: é um encontro de poesia, música, dança, teatro e outras artes. Estaria correto. Mas seria pouco. Um sarau é também um lugar onde alguém chega carregando uma palavra guardada dentro de si e descobre que finalmente encontrou onde dizê-la. E é para isso que o Sarau dos Pensadores continua existindo.