(Vanessa Rodrigues/AT) Para os gregos, pátria mesmo era a cidade. Pátria minha, a língua portuguesa; pátria, o estuário rio salobro que passa na minha Santos, cidade-estado e universal aldeia. Como em Pessoa, minha Lisboa doutra margem. Ulisses de odisseias líricas, etílicas, amorosas, fiz aqui minha Ítaca suspensa por guindastes, celeiro de contêineres, do suor da estiva e surfistas argonautas. Terra movediça onde se sobrepõem todas as eras acumuladas: testemunha de caravelas, pouso de piratas e corsários, rota de bravos imigrantes. Santos de jesuítas, fidalgos, poetas malditos, abrigo de degredados, libertadores. Das mulheres de vida airada da antiga boca, de musas, dos labirintos de catraias, balsas, cargueiros, tanta paixão misturando chegadas e partidas, eternizando o sagrado halo de tua maresia em nossas ventas. Praia, porto envolvendo-a, casarios centenários, charme da história te impregnando, mas tua atmosfera é maior que a soma de todas tuas partes. Um ‘não-se-que’ na tua disposição solta para o mundo, uma bruma única, um halo misterioso feito solo de sax num filme noir, um torpor na alma, umidade que nos cola por todos os poros. Santos enlanguescendo sensualíssima, bafejo noroeste que nos prostra, um crepúsculo na tua ponta mágica onde zarpam e arpoam nossos desejos, de onda em onda. Tua balaustrada símbolo em arabescos, suor de ferrugem e salitre, canais conservando em limo aragens, tempestades trópicas, miasmas de fantasmas por teus becos, tabernas, ruínas de outrora e novos minaretes de néon e arenoso concreto. Santos, forjada substância do tempo. Se me perguntarem o que é Santos, impossível dizê-lo. Mas, se não perguntarem, saberei senti-lo, teu sentimento atlântico que assoma e nos faz reféns das tuas cintilantes tardes modorrentas. E tua noite chega nos redimindo, esperançados por teus antros e templos, chalés e sobrados, dando vida à tua fauna de loucos de praia, revolucionários de botecos, gaiatos e forasteiros, como se fosse a vida terra de passagem ou o universo eterno veraneio. Da fibra do negro, do esforço luso, Guaiaó, pátria minha, sem condescendência, com quem duelo e à quem rendo sempre novo amor e engenho. Santos é como o jazz: se não sabe explicar o que suscita o raro ritmo, não haverá quem diga a sedução que te provoca! Esse fascínio que me habita em teu desterro, paixão que nasce não sei onde, vem não sei como e dói-me não sei por quê. Camonicamente Santos! Deixa-me cantar tua epopeia de ilha, ilha, ilha caída de beleza pela lua nua diante o mar. *Flávio Viegas Amoreira é curador da Casa das Culturas de Santos,membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande