[[legacy_image_318549]] Desde a infância, você foi mais do que um time para mim, você foi a extensão da minha vida, a maior herança que eu poderia receber do meu pai, que me presenteou com o amor por essas cores, por esse escudo, por essa história. Vila Belmiro, meu segundo lar, depois da minha casa, você é certamente o local em que eu mais estive em toda a minha vida. Ao longo desses 36 anos, foram incontáveis as vezes que caminhei por aquelas calçadas, subi por aquelas escadas e me posicionei sempre no mesmo lugar pra te ver jogar, vibrei com cada gol e sofri com cada derrota. Aqui, na minha segunda casa, conquistei amigos que são mais do que companheiros de arquibancada, são irmãos de coração. Pelo Santos, eu viajei o Brasil e o continente, vivendo vitórias e enfrentando derrotas. Foi por você que atravessei o oceano, foi por você que eu reprovei na faculdade; afinal, entre fazer a prova ou embarcar para o Japão, eu não tive a menor dúvida. A viagem me custou 6 meses na faculdade, mas pouco importou, por você, tudo sempre valeu a pena. Santos, você não foi apenas a razão de algumas lágrimas, mas também a causa das minhas maiores alegrias. Na nossa casa, com meu pai ao meu lado, repetimos milhares de vezes o ritual de vestir a camisa, pegar a chave do carro, sintonizar a rádio para escutar Edson Callegares, Vitor Moran e Guido Bortolomasi e sair rumo ao Canal 2. Cada quarta e domingo eram sagrados, cheios de palpites sobre escalação, prognósticos do jogo e abraços vibrantes a cada gol em Urbano Caldeira, nosso lar comum. Enfrentei a fila de títulos da década de 90, vi rivais marcando gols e pescando o peixe na comemoração durante anos, chorei por derrotas e eliminações - como esquecer do Túlio em 1995, do Rogério Ceni em 2000, do Ricardinho em 2001 -, mas em cada uma delas meu amor por você só crescia. O futebol é assim, feito de derrotas e vitórias, e isso faz parte do jogo. Santos, você para mim sempre foi mais do que um clube de futebol; você é um amigo inseparável e a nossa comunicação é através dos nossos risos, das nossas lágrimas e de toda a nossa emoção. É amigo, no fatídico 6 de dezembro de 2023, tudo mudou. Os sinais estavam lá há anos, mas nada poderia preparar meu coração para esse dia. Nos últimos 3 anos, o seu estado de saúde piorou muito, eu sentia você clamando por ajuda, te vi adoecer depois de cada partida e as pessoas que podiam te salvar nada fizeram, foram negligentes, omissas e não prestaram o digno atendimento que você merecia. Te vi pedir socorro no último jogo, mas ninguém atendeu seu chamado. Na noite mais triste da história da Vila, junto ao meu pai, testemunhei a morte do nosso melhor amigo. Naquele momento, morreu um pedaço de mim. No mesmo campo e no mesmo ano que velamos a nossa cria, morria o criador, morria parte da minha história, da minha infância, morria parte da minha cidade, esse time leva o nome da cidade que eu nasci, vivi e vou morrer. Esse amigo não foi socorrido, morreu sem ajuda e aquele que prometeu amar e cuidar da sua saúde o abandonou, desligou os aparelhos e fugiu. Mas isso é um capítulo à parte, pois eu acredito na justiça divina. Para aqueles que tentaram te destruir, nós vamos provar que a ressurreição existe e, acreditem, nossa história não terminou naquela noite sombria. Resgataremos a alegria da nossa torcida, da nossa cidade e de todos aqueles que verdadeiramente amam esse clube. A Vila Belmiro se despediu de 2023 silenciada, sangrando, mas ela voltará a vibrar com foguetes e bandeiras. O gás de pimenta será substituído pelo cheiro da vitória e as lágrimas de dor serão transformadas em lágrimas de emoção. Santos, você é a nossa vida, jamais desistiremos de você. Fique bem, meu amigo.