(Alexsander Ferraz/AT) Por aqui viver desde sempre nestes mais de 40 anos, nascida e criada em Santos, sou bastante entusiasta das belezas e atrativos de nossa Santos, que são muitos, sem deixar de exercer o senso crítico - enquanto cidadã e professora de História - quanto às inúmeras mazelas e descasos que acometem a nossa região, nas mais variadas áreas. Acompanhei diversas décadas de desenvolvimento urbano, com iniciativas primorosas e necessárias, que constituíram medidas importantes diretamente relacionadas ao fomento do turismo na região, principalmente aquele voltado para passeios histórico-culturais, que carecem de um pouco mais de atenção, seja do poder público ou de iniciativas privadas. Uma preocupação constante recai sobre nosso patrimônio edificado e certa tendência ao “derrubacionismo urbano”, que não é de hoje. Antigas casas e chalés, datados do início do século passado, prédios escolares ou hoteleiros que são verdadeiros modelos da arquitetura eclética e modernista, conjuntos de casarios representativos de diferentes etapas de ocupação e formação dos bairros em Santos estão relegados ao esquecimento. Para além das belas praias e jardins, a cidade de Santos é, em essência, ancoradouro de inúmeros “lugares de memória”, aqui recuperando o conceito do historiador francês Pierre Nora. Em linhas gerais, os lugares de memória são suportes que consolidam e protegem a memória de um grupo, de uma comunidade, extrapolando a materialidade e atingindo o campo simbólico, podendo se constituir em paisagens, celebrações, rituais, textos, museus, memoriais, arquivos, bibliotecas etc. Nesse sentido, faz-se urgente reconhecer que nossa região é palco de uma rica diversidade étnico-cultural, que merece ter seus espaços de memória preservados e celebrados, por meio de uma educação patrimonial conscientizadora da sociedade. A realização de roteiros turísticos temáticos diferenciados pode ser um recurso interessante que envolva, por exemplo, a criação de circuitos voltados para a história das práticas desportivas, destacando o pioneirismo dos clubes de regatas, do surfe, do tamboréu, da capoeira etc. Ou mesmo para a história da Educação e dos grupos escolares, homenageando grandes professores e gestores; um circuito religioso/espiritual, que abrace a pluralidade das festividades, dos espaços, das edificações e manifestações de fé. Ou, ainda, um passeio pela história das artes visuais, revelando nosso celeiro de artistas; dentre tantas outras matérias em que somos precursores, inovadores e brilhantes. *Melissa Mendes Caputo Vicente. Professora de História, mestre em Educação e doutoranda em História, Política e Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas