<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-end="351" data-start="120" dir="auto">Quando penso em Santos, não vejo apenas uma cidade. Vejo a minha família dentro dela, a praia do Embaré, as caminhadas com a minha mãe e o meu avô Manuel, as ruas que fui aprendendo a reconhecer antes mesmo de saber ler e escrever.</p> <p data-end="532" data-start="353" dir="auto">Foi nesse espaço, feito de afetos, vozes, lugares e pequenas descobertas, que comecei a formar a minha primeira ideia do mundo. Santos foi o grande cenário dos meus anos iniciais.</p> <p data-end="679" data-start="534" dir="auto">Já adolescente, comecei a correr na praia. A orla marítima fazia então parte do meu dia-a-dia com a naturalidade das coisas que julgamos eternas.</p> <p data-end="959" data-start="681" dir="auto">Corria junto ao mar, sem pensar na singularidade daquela paisagem nem na extraordinária extensão dos jardins que acompanhavam a costa. O prazer estava no movimento, no vento, no horizonte aberto. Depois vinha o caldo de cana, fresco e doce, uma recompensa singela após o treino.</p> <p data-end="1086" data-start="961" dir="auto">Também o Colégio Leão XIII, a biblioteca da Sociedade Humanitária e o Santos Futebol Clube pertencem a essa geografia íntima.</p> <p data-end="1201" data-start="1088" dir="auto">A minha mãe ensinou-me a ler e a escrever aos cinco anos. Aos sete, comecei eu próprio a escrever os meus textos.</p> <p data-end="1349" data-start="1203" dir="auto">A escrita tornou-se, então, uma forma de expressão, quase sem que eu pudesse ainda compreender tudo aquilo que essa descoberta viria a significar.</p> <p data-end="1634" data-start="1351" dir="auto">Quando volto àqueles anos, vejo sobretudo as pessoas que lhes deram significado. A minha mãe, o meu avô Manuel, a família, os lugares onde aprendi a olhar, a ler, a escrever e a descobrir o mundo. Santos ficou ligada a esse início da minha vida de uma maneira que o tempo não apagou.</p> <p data-end="1965" data-start="1636" dir="auto">Saudades da “minha” Santos, do pôr-do-sol mais bonito que existe, apelidado por Martins Fontes (1884-1937) de “Sol das Almas”, e de conviver com o espírito santista, aquele da Caridade e da Liberdade, que nos faz acreditar que, afinal, existe um lugar no mundo onde dá gosto cumprir o ciclo da existência: nascer, viver e morrer.</p> <p data-end="1979" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="1967" dir="auto">*Rui Calisto</p>