(Alexsander Ferraz/AT) A ciência se espanta com as mudanças advindas do clima, com a inteligência artificial (IA) e suas ambivalentes possibilidades e quatro anos são uma eternidade que precisa ser pensada para governar uma cidade diante do Dr. Imponderável. Em idas e vindas, observo à distância a ilha, canto do mundo, mar serpenteando tão vulnerável faixa urbana adensada. Impossível não governar intuindo as mutações que nos desafiam. No outono da vida só vislumbro duas preocupações coletivas: a resiliência do homem no planeta e arte para fazê-lo forte. Quando falo em Arte, em nosso caso, digo: manutenção do patrimônio de 500 anos, da relação cidade-porto-oceano, da ecologia arquitetônica e convivencial saudável e claro! Alma em tempos de vulgaridade e consumismo. Mais Barcelona e Amsterdã, menos Miami e Camboriú, que não são exemplo de nada. Santos precisa fazer o diferencial com seu potencial cult e não render-se ao jeca. Cult é valorizar o que a legitima: seu Centro histórico, sua cultura popular, suas casas de Cultura, sua boêmia, seu patriarca, sua santisticidade. Qualquer arremedo de Dubai soará patético. Fortalecer o que nos distingue sem copiar “cafonamente”. O casamento lindo da terra com o cais mítico, o time glorioso que nos exporta, a cenografia viva do Valongo ao Macuco, tendo a Bacia do Mercado revitalizada. Um governo que começou peitando com dureza uma enigmática pandemia deverá chegar à ambientalmente desafiadora década de 2030 com uma estrutura “holandesa” de contenção de danos ao fenômenos adversos que nos espreitam. Poetas são tidos sonhadores, chatos por advertência, mas tem-se provado visionários. Não foi profético o imenso T. S. Eliot em Terra Devastada? Como reverter ou mitigar municipalmente os prejuízos planetários ao clima? Fomos nós! Pensemos nós para salvar-nos! Não é a economia! É o clima que fará todas outras variáveis do dia a dia! Consertar as muretas da Ponta da Praia será incessante trabalho de Sísifo. E a maré que contorna a brava gente das periferias. Da minha parte, cultivo meu jardim na defesa de uma Biblioteca que mereça esse nome e o Coliseu centenário que precisa de uso à altura de sua majestade. Os tolos pensam que poetas são movidos por ilusões, quando o que fortalece é a luta. Com Max Weber, aprendi que governar, seja uma casa ou uma cidade, é esgrimir com o impossível, é cumprir uma missão “apesar de”.... apesar do obstáculo, apesar da escassez. Governar será cada vez mais ampliar o arco de interlocutores. Os sensíveis crescem em tempos brutos. Assim será Santos. *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande