(Reprodução) Uma cidade sem poesia é um emaranhado de concreto. Santistas, acumulamos 500 anos de rara história e lirismo sobrepostos alma por alma. Antigamente, não se contavam habitantes numa aldeia, falava-se em número de almas. Vivas e fazedoras de encantos. Temos como cenário para as nossas os canais bucólicos, o aroma do melhor café do mundo, um dos portos mais reconhecidos do planeta e os mais lindos jardins de orla de todas as costas. Isso tudo não é papo de santista prosa, tem o dedo de um gênio da literatura que proporcionou a riqueza de todos essas proezas. Vicente de Carvalho, parceiro de Saturnino de Brito e Silvério Fontes, foi o estadista responsável a contratar esses mestres do sanitarismo a salvar Santos. Vicente de Carvalho, corretor de café, foi dos maiores defensores de uma política de preços justos para o ouro verde. Fazendeiro, exportador, foi primeiro empresário de navegação de cabotagem brasileiro. Defensor incansável da pesca nativa de Bertioga a Iguape, ecologista visionário na defesa do mar útero da terra, ainda nem falei do poeta admirado em todos países lusoparlantes. Vicente é nosso Dante, nosso Camões, nosso Cervantes que dá sentido a nós, santistas! Porque é o poeta quem avaliza uma civilização. Depois de décadas sem ser editado, com patrocínio comovente da Unisanta e chancela das Academias Paulista e Santista de Letras e Fundação Arquivo e Memória de Santos, envidamos reeditar nosso escritor símbolo. No próximo dia 18, este poeta que segue os passos de Vicente lança, com prefácio de Ives Gandra Martins, das professoras Silvia e Lucia Teixeira e de Vicente de Carvalho Neto, a obra Vicente de Carvalho Redescoberto, pela Editora Costelas Felinas. São poemas antológicos, um conto inédito e um estudo crítico sobre a obra do imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) que amou Santos por todos os poros e versos. Herdeiro espiritual, canto de amor suas mesmas paixões: o vento noroeste, as praias do Indaiá ao Sangava, os contornos de Litoral paulista onde fez-se berço da brasilidade. Vicente e A Tribuna são patrimônios coetâneos: foi neste jornal que ele conseguiu a cessão das praias à municipalidade com uma carta pública ao presidente Epitácio Pessoa em 1922. Vicente de Carvalho, com esse manifesto, se tornou patrono nacional da luta contra a privatização das praias. Vocês viram com que força o Rio Grande se ergueu? Com que garra Paris resgatou Notre-Dame? Temos um lastro a motivar nosso futuro: nossas tradições, o halo de maresia, o futebol estelar, tudo embalado pelo “mar belo mar selvagem de nossas praias solitárias...” Honrar Vicente é aprender ser santense em cada estrofe! *Flávio Viegas Amoreira. Escritor membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande