[[legacy_image_293791]] Um domingo brumoso sobre uma cidade prestes completar meio milênio. No que escrevo, leio matéria imensa sobre a mítica Santos de Patrícia Galvão no bom e velho Estadão, assinada pela competente jornalista cultural Maria Fernanda, santista e filha do querido José Rodrigues. Podemos dizer que em 500 anos já compomos uma civilização assentada em valores próprios, ancestralidades frutíferas, uma cidade-estado diferenciada (palavra na moda) na brasilidade. De onde escrevo, espreito um cargueiro solerte no Canal da Barra. A imaginação, associada à memória, me faz divagar com Rimsky-Korsakov, Puccini, o tenor Caruso e Massine, sucessor de Nijinsky. Santos, escolhida por Mário de Andrade e Antonieta Rudge para sediar um grande conservatório musical inaugurado por Villa-Lobos. Santos, que recebeu inúmeras vezes dona Guiomar Novais e Magda Tagliaferro, assim como a soprano Bidu Sayão. Não é que honramos a tradição de bem querer dos grandes gênios da composição, do bel-canto e do piano na última quinta-feira, quando encerrou-se um ciclo de 70 anos um dos maiores pianistas brasileiros, José Eduardo Martins? Depois de um périplo europeu com passagens por Bélgica e Portugal, onde é íntimo dos grandes salões de concerto, ele escolheu Santos para se despedir dos recitais onde começou, nos idos de 1957. Santos, que tinha uma elite profundamente mobilizadora da Arte através do Centro de Expansão Cultural, conduzido por dona Carolina Costa e Aura Botto de Barros. A Cidade que poderia se dar um luxo de ter um dos maiores compositores do Brasil, Gilberto Mendes, como crítico de musica erudita aqui em A Tribuna. Ele mesmo me contava da felicidade de um programa de rádio só com programação erudita, conduzido com competente entusiasmo por Gisela Santini Adrien, também na sempre pioneira Rádio A Tribuna. Essas três senhoras formaram platéias e propiciaram repertório que desaguou na noite memorável, diante do mar de Vicente de Carvalho, na querida Pinacoteca de um intérprete de trajetória universal. José Eduardo, exímio interprete de Rameau, Lizt e Debussy, foi mais atuante divulgador das obras dos compositores nacionais. Redescobriu Henrique Oswald, executou Gilberto Mendes e Almeida Prado no Salão Árabe, em Porto, e na Biblioteca Joanina, em Coimbra, além de gravar 25 CDs em estúdio por toda a Europa. Professor titular da USP, forjou gerações de músicos, conviveu com mitos - desde Arthur Rubistein a Nádia Boulanger - e levou à arte pianística um sentido de missão estética raro em tempos de mero espétaculo. Ouvi-lo é privilégio pelo respeito sobrehumano que dedica ao repertório, às trajetórias dos mestres e à racionalidade mediada pela transcendência ao imprimir a poesia etérea da musicalidade. Ouvir o causeur cosmopolita ao lado da querida esposa e pianista Regina é deleite aos raros que cultivam seu universo, que faz juz à frase de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”. A Pinacoteca Benedicto Calixto marcou mais um feito histórico na cultura brasileira ao aceitar nossa proposta deste concerto que percorreu 70 anos na noite de quinta-feira, algo que devo especialmente à dedicação da jornalista Arminda Augusto à cultura desse “país” chamado Litoral Paulista. A Pinacoteca faz jus ao seu destino multifuncional ao homenagear um artista múltiplo, José Eduardo Martins, pianista internacional, escritor prolífico e musicólogo, notabilizado pela rigorosa crítica francesa como o "pianista perfeito" e considerado pela grande mídia portuguesa uma referência para música erudita lusitana. Saudo-te, querido amigo e mestre!