[[legacy_image_319920]] Há quem faça correlação entre o desenvolvimento econômico aliado à confiança no futuro e o florescimento cultural, esportivo e social de uma comunidade. Um dos melhores exemplos disso é o Brasil da segunda metade dos anos 1950. Nos anos JK viveu-se período especial: crescimento econômico acelerado, estabilidade democrática, certeza de que estávamos no rumo certo. Os reflexos são múltiplos, com intensa atividade cultural. A Bossa Nova surge com vigor, o Cinema Novo faz enorme sucesso, o teatro se renova. Ganhamos a Palma de Ouro em 1962 com O Pagador de Promessas. Nos esportes, a seleção brasileira de futebol ganha as Copas de 1958 e 1962, e a de basquete também é campeã mundial em 1959 e 1963. O Brasil respirava otimismo e confiança. Em Santos o ambiente também era muito favorável. De um lado, cultura; de outro, esportes. Destaque-se que a Cidade viveu seu apogeu econômico, com a tríade negócios do café (que vinha da virada do século), Porto e parque industrial de Cubatão (que começava a ser implantado nos anos 1950), além do turismo e da construção civil, com dezenas de novos empreendimentos imobiliários. A Via Anchieta propiciou tal crescimento, com suas duas pistas inauguradas em 1947 e 1950, fazendo com que a quantidade de automóveis que circularam por ela passasse de 815 mil em 1950 para 2,3 milhões em 1960. Entre 1950 e 1965 o total de estabelecimentos comerciais passa de 1.695 para 2.710, um acréscimo de 60%. Santos era a principal praça bancária do Estado, atrás apenas da Capital, e em 1960 ocupava a sexta colocação no País, superada apenas por São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Havia na Cidade 22 cinemas, com 24 mil lugares, e despontava no cenário nacional e internacional o Santos Futebol Clube, que, após conquistar vários campeonatos paulistas e brasileiros, se tornou campeão sul-americano e mundial em 1962 e 1963. O glorioso Santos F.C. resistiu ao tempo e à decadência da Cidade. Perdeu a pujança dos anos 1950-1960, mas conseguiu manter-se entre os clubes importantes do País, com algumas conquistas, embora cada vez mais espaçadas. Lamento dizer que perdemos o vigor e a força econômica. A crise se abateu forte na Cidade ao longo das últimas décadas: os negócios do café se foram, o parque industrial de Cubatão foi reduzido, o turismo perdeu espaço para outras regiões. Restou o Porto, mas com nova configuração, empregando cada vez menos. O mais grave talvez tenha sido o retrocesso cultural. De uma cidade em ebulição política e social, referência de lutas importantes desde o final do século 19, com movimento sindical aguerrido, e contando com intelectuais e artistas renomados, fez-se a pasmaceira. A perda da autonomia política acentuou a decadência e a Cidade foi se tornando menos relevante no cenário nacional. A classe média acomodou-se e virou à direita, abraçando o conservadorismo. Não quero dizer que a tragédia do Santos F.C., rebaixado à série B do Brasileirão, se deve apenas ao panorama econômico e cultural. Há administrações incompetentes e irresponsáveis, erros que se multiplicaram ao longo do tempo. Mas não há dúvida que o fracasso do nosso Santos tem a ver com nossa realidade. A missão de recuperar o terreno perdido é gigantesca. Seremos capazes de realizá-la em todas as suas dimensões?