(Sílvio Luiz/AT) Janeiro de 2025. Volto à velha fonte, para que as águas que me habitam não se esgotem. Nem as lembranças do batismo, quando vesti o camisolão de crepe bordado, o mesmo usado pelas irmãs mais velhas e pelo primeiro varão. Ao pé do Monte Serrat, a água fresca do Itororó era respingada em nossa fronte. Depois, subíamos em procissão familiar a imensa escadaria do antigo Monte de São Jerônimo, a 157 metros do nível do mar, rezando diante dos quadros da Via Sacra. A Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat, em estilo barroco, com seu frontão de volutas e torre sineira quase da altura da nave, nos acolhia para o batismo, o registro em certidão e a prece diante da santa. Na sala dos milagres, muletas, cabeças, pernas e braços de cera, fotos, que os devotos ofereciam em gratidão à santa, assustavam. Lá fora, a alegria do piquenique no gramado e a emoção ao ver, lá do alto, o Atlântico e os navios, que aos olhos das crianças pareciam barquinhos de papel. Ao comemorar 479 anos, nos atos solenes, os discursos revisitam o início da história. Evocam o português Braz Cubas, homem empreendedor, e um dos mais respeitados da época colonial na região. Fidalgo da Casa Real, nasceu na cidade do Porto, por volta de 1507, e chegou ao Litoral Paulista em 1532, junto com Martim Afonso de Sousa para a colonização. Braz Cubas, em 1546, elevou à categoria de vila o povoado que crescia na região do Outeiro de Santa Catarina, no centro histórico, às margens de um porto ainda tímido. Criou a primeira Santa Casa de Misericórdia das Américas e transferiu o Porto da região da Ponta da Praia para o centro histórico, por entender que era mais seguro. Santos renasce neste janeiro de 2025. Hoje, ainda sobrevoam as garças forasteiras, acolhendo a todos que chegam nestas plagas. Venham de onde vierem, ó Santos, terra da caridade e da liberdade! Pátria de José Bonifácio, nobre filho, que fortaleceu nosso ideal democrático na luta do Brasil pela Independência de Portugal. Neste aniversário, minha Santos, continuo aqui, sempre contigo! Envelheço sentindo a maresia, escutando o canto do sabiá que atravessa os jardins e rompe a avenida, chegando às nossas casas. E contigo, ao plangerem os sinos da Catedral, cá embaixo, e da capela do Monte Serrat, lá no alto, celebraremos em preces de amor, o sempre amor por todos, pelos desabrigados, pelos cidadãos desempregados, pelos que passam fome... Preces pelos irmãos negros, cuja memória foi apagada pela política de construção da nação! Em Santos, porém, a memória de Zumbi permanece gravada na Praça dos Palmares. Hoje não é dia de tristeza. É tempo de celebrar a vida desta Santos, desejando que o emprego e o justo salário permitam o pão em todas as mesas. E que juntos façamos a comunhão! A fonte do Itororó continua ao pé do monte, abençoando teus 479 anos, minha Santos! *Regina Alonso é escritora, membro das academias Santista de Letras Casa de Martins Fontes e Vicentina de Letras Artes e Ofícios Frei Gaspar da Madre de Deus