(FreePik) O batuque nas latas pelas ruas do Mercado acordava a Vila Nova. Éramos foliões desde pequenos, a exemplo dos pais e tios carnavalescos, no tempo do Bloco Chineses do Mercado, ensaiando ali, na Rua Cerquinho para o Desfile Dona Doroteia, vamos furar aquela onda? – em frente ao mar, na Ponta da Praia. Tempo sem tevê, onde o ato só acontecia ao vivo. Quem não caía na folia, adeus! Tempo de confete, serpentina, lança perfume de vidro ou lata dourada, a preferida do meu pai. O velho Lobo do Mar trazia sacos de confete e serpentina, que mamãe à noite, após o serviço doméstico, dividia em sacolinhas de filó, feitas por ela. Com orgulho e alegria, amarrávamos na cintura com uma fitinha de cetim, para dançar nas matinês do Atlético Santista e da Humanitária, acompanhados pelas irmãs mais velhas. Na Bittencourt, o estandarte da molecada era montado com cabos de vassouras e restos de panos da nossa desdobrável Isabel, anjo maternal, figurinista e costureira, possibilitando o desfile do bloco dos foliões descalços! De seda, tule e de papel crepom, fantasiados de piratas, arlequins, colombinas, pierrôs, malandros e árabes, invadíamos a Rua Benedito Pinheiro até a Sete de Setembro. Das sacadas, a vizinhança aplaudia e alguns moradores, crianças, jovens e velhos, vinham se juntar à folia. A chuvarada de verão muitas vezes nos surpreendia, mas não desistíamos, cantando O Pirata da Perna de Pau; Jardineira; Allah-La-Ô... Ainda hoje me emociono quando me lembro das músicas que papai cantava: “Loirinha loirinha, dos olhos verdes de cristal, serás a rainha do meu Carnaval”... Ou “Eu dei! O que foi que você deu, meu bem?! Eu dei! Guarde um pouco para mim também”… mostrando a malícia gostosa dos velhos Carnavais! Os tios traziam os primos para aproveitarem a folia, que se estendia ao Centro de Santos, onde desfilavam os ranchos e as escolas de samba. Papai carregava os filhos, um por vez, no cangote para os pequenos enxergarem bem as coreografias. Eu adorava o mestre-sala e a porta-bandeira e desejava um dia ter o privilégio de carregar o estandarte, rodopiando com as vestes bordadas, em evoluções na passarela! A atmosfera do Centro de Santos era mágica. Sob a luz dos lampiões, as lantejoulas multiplicavam o brilho e as cores. Retornávamos a pé, os pequenos adormecidos no colo dos pais e dos irmãos mais velhos. Os passos ecoavam na madrugada, até papai girar a chave na fechadura da porta de casa. Subíamos ofegantes os degraus de madeira do sobrado. O vitral da porta em vaivém, no hall, refletia as cores em nossos corpos, fazendo-me, sonhadora que sou desde criança, pensar que o desfile continuaria em casa. Na manhã seguinte, confetes pelo chão, fantasias no varal ao vento, despertavam a beleza do Carnaval. Mas, a Quarta-Feira de Cinzas era apenas silêncio. *Regina Alonso. Escritora e membro das Academias Santista de Letras ‘Casa de Martins Fontes’ e Vicentina de Letras, Artes e Ofícios