(Matheus Tagé/Arquivo AT) No início deste mês, Santos recebeu uma sessão especial do documentário Leci, no histórico Cine Roxy, reunindo artistas, militantes, sambistas, jovens e pessoas que compreendem a importância da memória na construção de um país mais justo. Mais do que uma exibição, o encontro foi um gesto político, cultural e afetivo em defesa do que o Brasil tem de mais valioso: seu povo, sua arte e sua capacidade de resistir. Falar de Leci Brandão é falar de coerência. Em um tempo de discursos vazios e personagens fabricados para as redes, Leci atravessa décadas mantendo intacta a ligação entre arte, compromisso popular e coragem política. Ela é uma das vozes mais importantes da cultura brasileira e uma parlamentar que transformou seu mandato na Assembleia Legislativa em instrumento de defesa da cultura, do povo negro, das mulheres, das periferias e da democracia. O documentário capta justamente isso: a dimensão humana e política de uma mulher que nunca se afastou do povo. Há algo poderoso em assistir à história de quem escolheu permanecer fiel às próprias convicções mesmo enfrentando preconceitos e portas fechadas. Leci nunca precisou abandonar suas origens para ocupar espaços de destaque. Pelo contrário: foi levando consigo a favela, o samba, a luta popular e a dignidade de quem veio do povo que ela se tornou referência nacional. Em Santos, cidade de tradição cultural intensa e profundas desigualdades, sua presença tem significado especial. Não existe democracia forte sem acesso à cultura, nem cidadania plena quando o povo é privado do direito de contar sua própria história. Defendo uma cidade que valorize a cultura não como decoração institucional, mas como política pública estratégica. Cultura gera pertencimento, consciência crítica e oportunidades. Um cinema cheio para assistir a um documentário sobre uma mulher negra, sambista, socialista e deputada também é uma resposta ao individualismo e ao ódio dos últimos anos. A emoção daquela noite não veio só da tela. Veio da identificação, da percepção de que ainda existem figuras capazes de unir discurso e prática. Em tempos tão superficiais, isso tem valor enorme. A trajetória de Leci nos lembra que a arte transforma e que a política, quando exercida com verdade, ainda pode ser espaço de esperança. Santos saiu maior depois daquela sessão. Um país melhor também se constrói com cultura, memória e coragem. *Thiago Andrade. Gestor público