Cá estou porque um assunto urgente exige. E, por isso, o paciente leitor há de ouvir as minhas lamúrias advindas do trabalho feito pelos padeiros de hoje em dia. Pois bem. A média pode ser muita coisa. Podemos andar por aí a fazer média com nossos pares. Ou a média aritmética, que tanto me torrou os miolos. O Direito fala sobre o homem médio, que não sei bem pra que serve. E as padarias, universo afora, servem aos clientes a boa e velha média que, para Noel Rosa, não pode ser requentada. Por aqui, a coisa é diferente. A média de sempre não é média, é pingado, ainda que a proporção de leite e café vá além de um simples pingo. Não obstante tais diferenças, a coisa por aqui vai de mal a pior. Veja bem: em nossa região, a média não apresenta estado líquido. Ela é sólida, muito sólida e, hoje em dia, quase um tijolo. E os padeiros… ah, os padeiros! Meu amigo! Eu não sei bem o que está acontecendo com as padarias por aí. Não sei se todas, mas muitas. Talvez o curioso leitor esteja se perguntando o porquê de eu estar metendo o padeiro num assunto sobre média, pois, na prática, não é ele quem prepara a média comum, saboreada por quase todos. Digo quase todos, porque aqui na Baixada não bebemos a média, mas a comemos — ou comíamos… E acabo de me dar conta de que ainda não informei o que é, para nós, a Média. Voilà: A média aqui é pão. Aquele pão gostoso, crocante, composto por apenas quatro ingredientes: farinha, água, sal e fermento. A boa e velha média, que antes chegava à porta de casa, cedinho, pelas mãos do padeiro, que dizia “não é ninguém, não. É o padeiro”, e nos despreocupávamos da pressa. Esse mesmo pão, que por aqui se nomeia média, é, em outros lugares, pão de sal, cacetinho, pão careca, pão Jacó, pão de massa grossa, ou o que se queira dizer para nomeá-lo, agora é um ex-manjar dos deuses. E a culpa só pode ser dos padeiros. Se não deles, então, dos donos das padocas, que, seguindo a onda de simplificação na composição dos alimentos, tentam economizar. Não encontro mais por aqui a boa e velha média, crocante e saborosa. Aquela que cabe na boca e faz crec crec. Antes, recebo no balcão uma massa disforme, grande e boluda, que mais se assemelha a um sapo boi. Indignadamente, protesto contra os padeiros! Abaixo os donos econômicos das padocas contemporâneas! Sejam honestos e informem nas vitrinas de cada padaria: Aqui vendemos pão sabor média”. “Sabor média”, entendeu? Porque média, mesmo, a verdadeira média da Baixada Santista, parece não mais existir. *Thiago Sobral. Professor e autor de “O pai, a faca e beijo”