[[legacy_image_356528]] Aurélio Agostinho de Hipona, conhecido universalmente como Santo Agostinho, foi um dos mais importantes teólogos e filósofos nos primeiros séculos do Cristianismo. Sua reflexão transcende o tempo e a fé devido à densidade e à temporalidade. Dentre suas reflexões destaco a elocução: “Prefiro aqueles que me criticam, pois me corrigem, aos que me elogiam, pois me corrompem”. Nesta pequena citação há uma reflexão profunda correlata à uma das grandes chagas do homem: a vaidade. A mitologia – que antecede as escolas filosóficas – traz em seu bojo a história de Narciso, filho do deus do rio, Cefiso, e da ninfa Liríope; era um jovem de uma beleza extraordinária, mas extremamente arrogante, desprezando o amor das ninfas que o desejavam. Um dia, enquanto caçava na floresta, a ninfa Eco, apaixonada por ele, o seguiu, mas foi rejeitada. Em represália, Nêmesis, deusa da vingança, fez Narciso se apaixonar por sua própria imagem refletida na água. Encantado consigo mesmo, Narciso não conseguia se afastar da margem do rio e definhou até a morte. No local onde jazia, nasceu uma flor, o narciso, simbolizando o amor próprio e a vaidade excessiva. Narciso é um símbolo clássico da vaidade e do amor próprio descomunal, frequentemente utilizado para representar a obsessão pela própria imagem e a falta de empatia pelo próximo. Nesta passagem mitológica identificamos a gravidade da exacerbação da vaidade e suas consequências, dentre as quais a perda factual da realidade. Incontestavelmente, a essência do homem reside em sua falibilidade. Entretanto, nas hierarquias de toda espécie, a adulação, a lisonja e a bajulação ao topo contribuem para a corrupção das estruturas, e quando o narcisismo aflora nos cumes. Além de ser desprezível tanto para o corrompido quanto para o corruptor, a vaidade obscurece a capacidade de autoavaliação necrosando assim o todo ao redor. Há uma falsa sensação de empatia, criando ciclos destrutivos que impedem a correta análise, reflexão, ajuste e aprimoramento. Santo Agostinho, em sua sabedoria filosófica, alerta para a corrupção narcísica, aponta as armadilhas da vaidade, traz a valiosa advertência do significado da crítica sincera, construtiva e edificante. Porém, o falsificar do encanto elogioso em bases insólitas alimenta a vaidade e a ilusão de muitos que passam a coexistir em embusteiras realidades. Há de se vigiar, recorrigir e se afastar dos corruptores da adulação – os seres diminutos que vivem nas sombras –, pois todo bajulador esconde grandes frustrações e incompetência, assim como todo bajulado esconde o pernicioso vício da vaidade e da inflexão.