<p data-path-to-node="1">A imagem de São Judas Tadeu, que fica na estante da sala, está ali antes mesmo de eu nascer. Ocupa um espaço privilegiado, entre fotografias antigas, livros e objetos que ainda parecem fazer parte da casa desde sempre. Durante muitos anos, meu olhar raramente olhava para aquele canto. Porém, num determinado tempo, soube que o santo estava sendo lembrado: era 28 de outubro, o dia dele.</p> <p data-path-to-node="2">Ainda criança, a estante me interessava também por outros motivos. Procurava álbuns de fotos, mexia em gavetas e observava objetos cuja utilidade eu não compreendia muito bem. Aquela imagem continuava lá, sempre presente. Era parte da paisagem da casa, permanecia sempre no mesmo espaço e se destacava no ambiente. Eu nascera em 28 de abril e soube que meu segundo nome fora atribuído em homenagem ao Consagrado. Passei a prestar atenção nele e quis saber mais a seu respeito. Descobri que fora primo-irmão de Jesus Cristo e nascera em Caná da Galileia, região da Palestina e que seu nome, “Tadeu”, quer dizer “corajoso”, “de coração generoso”.</p> <p data-path-to-node="3">Anos depois, já crescido, em um determinado sábado comum, resolvi organizar a estante. A intenção era simples: retirar tudo, limpar as prateleiras e recolocar os objetos. Parecia um trabalho rápido, mas logo percebi ser mais demorado do que imaginava. Cada item estava vinculado a alguma lembrança. Fotografias antigas, cartões esquecidos, documentos com pouca utilidade e alguns objetos comprados em viagens.</p> <p data-path-to-node="4">Quando terminei a limpeza, coloquei cada objeto em seu devido lugar. Dias depois, reposicionei a imagem, restaurada, exatamente onde antes estava. A estante parecia mais organizada e limpa, mas a sala continuava a mesma. Comecei a reparar no santo com mais frequência, não exatamente pelo significado religioso, mas porque o enxergava como parte da história da nossa casa.</p> <p data-path-to-node="5">Hoje, sempre que olho para a estante, lembro de cada fase do tempo. A imagem continua no mesmo lugar. Levei anos para melhor observá-la porque me acostumara à sua presença. Concluí que os objetos aparentemente mais comuns guardam inúmeras lembranças que, aos poucos, vão sendo reveladas como bem-aventuranças, a partir do nosso essencial encantamento.</p> <p data-path-to-node="6">*Maurilio Tadeu de Campos. Mestre em Educação, psicopedagogo, escritor, presidente da Contemporânea - Projetos Culturais e membro das Academias Vicentina e Santista de Letras</p>