(Imagem Ilustrativa/FreePik) Aqueles que, assim como eu, viviam o arrebatamento dos seus 20 e poucos anos no comecinho dos anos 2000, em Santos e arredores, tiveram a chance de conhecer o Café Teatro Rolidei. Num cantinho do foyer do 3º piso do Teatro Municipal de Santos, entre 2003 e 2019, funcionou aquele tipo de lugar que a gente fica viciado em frequentar. Foi assim comigo, foi assim com muitos dos meus amigos e foi assim com milhares de santistas que foram verdadeiramente felizes aos finais de semana nos 16 anos de funcionamento do projeto. O Rolidei era uma espécie de bar com teatro, música boa, danças coreografadas e gente de todos os tipos. Todos mesmo. Mas o que era, de fato, apaixonante por lá era que aquele espaço apertado, quente, colorido e diverso funcionava como um desses raros oásis onde a gente podia ser quem quisesse, inclusive nós mesmos. Nós entrávamos no Rolidei e colocávamos uma fantasia, um chapéu ou uma peruca e vivíamos algumas horas muito felizes. Só não podia ficar parado, porque, afinal, como se dizia por lá, quem fica parado é poste. Sob a batuta majestosa de Renato Di Renzo e Claudia Alonso, e um time lindo de voluntários, no espaço funcionava – e funciona até hoje – a ONG Projeto Tam Tam. Para aqueles que não sabem, a Tam Tam promove a inclusão de pessoas com deficiências, transtornos psiquiátricos e síndromes diversas, pela arte, desde 1992. O projeto trabalha com essas pessoas e com os ditos ‘normais’ também, uma verdadeira ode à diversidade. Tudo junto e misturado, num balaio bem brasileiro e múltiplo. E era essa turma toda que fazia as noites festivas do Rolidei ainda mais lindas, coloridas, diversas e acolhedoras. Por lá, já se praticava acolhimento, escuta ativa e empatia antes mesmo de estes termos virarem discurso batido. O Rolidei tinha um banheiro único, misto, onde as pessoas se reuniam para papear enquanto ‘aguardavam a sua vez’, com respeito, sem assédio, com igualdade. Por lá, nós nos sentávamos no chão para ver as esquetes teatrais e aguardávamos ansiosos pela ‘entrada triunfal’ coreografada em peso e cantada a plenos pulmões. Para grata surpresa dos que viveram esses tempos, cinco anos após a última noite no Café Rolidei, Claudia, Renato e a trupe do Grupo Orgone de Arte, que mantém a Tam Tam, resolveram fazer um revival. No último dia 4, um primaveril domingo de inverno, o espaço Herval 33, no Valongo, acolheu a festa ‘Rolidei – A volta dos que não foram’. A casa lotada reuniu os órfãos da balada mais louca que Santos já teve, que, agora quarentões, cinquentões e até oitentões, voltaram a vestir fantasias, dançar errado e se misturar. Teve tudo o que fazia do Rolidei um espaço único de arte e afeto: a banda Balaio Brasil, cativa nas noites de sábado, Musirama e Banda Expresso. Teve teatro, coreografias, entrada e saída triunfal, magamalabares, maluco beleza, choro, abraço e todo mundo misturado, celebrando a vida, a diversidade e a verdadeira inclusão. Será que vem mais por aí? *Diego Brígido. Jornalista e escritor