(Reprodução/Instagram) Robert Duvall, em minha opinião, é um dos melhores coadjuvantes da história do cinema, embora também tenha sido um bom protagonista em alguns filmes. A primeira vez que eu o vi atuar foi quando eu era criança. O filme era O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird, EUA, 1962). Ao mesmo tempo em que eu me identificava com a inocência infantil dos filhos de Atticus Finch, personagem de Gregory Peck, com destaque para Scout, interpretada por Mary Badham. Eu me divertia com as atitudes dela e de seu irmão, criados por um pai viúvo, quando dois temas terríveis foram lançados: discriminação e violência contra crianças. Aquilo não fazia o menor sentido para mim! Nunca fizeram parte da educação que recebi! O personagem de Duvall, um veterano de guerra traumatizado que vivia com o pai, era tido como estranho, assustador aos olhos das crianças. Não lembro dele ter proferido um único som ao longo de sua atuação. Mas foi ele que as salvou de um ataque covarde, fruto da animosidade que a atuação de seu pai, advogado, em defesa de Tom Robinson, acusado de um crime que não cometera num sul dos EUA onde o preconceito e a segregação eram históricos, e o ódio era ensinado desde a infância. Duvall, apesar de pouco ter aparecido, foi brilhante em seu silêncio, tendo merecido boa parte das cenas finais. O título original do filme, traduzido, significa “matar um rouxinol”. Busquei o sentido da frase e encontrei que simboliza a destruição da inocência e a crueldade de prejudicar seres indefesos e que só fazem o bem. O filme foi inspirado no livro de mesmo nome, de autoria da escritora Harper Lee, publicado em 1960. Vi esse filme apenas uma vez, que eu me lembre, mas me marcou pelo resto da vida, com as várias lições que aprendi sobre as várias nuances do enredo. O filme teve oito indicações ao Oscar de 1963, tendo sido premiado como melhor ator (Peck), melhor roteiro adaptado e melhor direção de arte. Mary, então com 10 anos, foi indicada como melhor atriz coadjuvante. Filmado em preto e branco, o enredo ganhou ainda mais força, algo que poucos diretores ainda ousam. Duvall me deu uma dessas lições por meio de seu personagem. Nisso ele foi protagonista, e não ter sido indicado não fez a menor diferença. Talvez ele seja mais lembrado por sua atuação na saga O Poderoso Chefão (1972-1990), mas seu personagem em Apocalipse Now (1979) é um de meus favoritos. Sua última participação foi em O Pálido Olho Azul (2022). Ao longo de seus 95 anos, Duvall sempre foi protagonista, mesmo quando coadjuvante, em silêncio, aconselhando ou comandando ataque de helicópteros ao som de Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner. Um ator memorável e querido pelos cinéfilos como eu! *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras