[[legacy_image_327442]] A 19ª edição do Global Risks Report ouviu 1.400 analistas de risco, líderes políticos e dirigentes industriais de todo o mundo para avaliar expectativas sobre catástrofes que podem ocorrer nos próximos dois e dez anos. O levantamento, realizado em setembro de 2023, apontou para melhora significativa das expectativas no curto prazo (dois anos), mas piora nas percepções para o longo prazo (dez anos) em relação a 2022: 30% agora classificaram como tempestuoso ou turbulento o cenário para os próximos dois anos, ante 82% em 2022, no auge da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e as tensões entre China e Estados Unidos. Em contrapartida, o pessimismo cresceu na perspectiva de longo prazo: 63% preveem que o mundo enfrentará um futuro turbulento, com riscos catastróficos à espreita ou turbulento, com reviravoltas e risco elevado de catástrofes globais. Em 2022, essas eram as expectativas de 54% dos entrevistados. Merece atenção a natureza dos riscos apontados pelos analistas e lideranças políticas e empresariais. No curto prazo, a grande preocupação é com a desinformação e informações falsas, que lidera o ranking dos principais riscos; no horizonte mais largo (dez anos), isso se transforma: as fake news e suas consequências passam para o quinto lugar, atrás de eventos climáticos extremos, mudanças críticas nos sistemas da Terra, perda de biodiversidade e colapso dos ecossistemas, e escassez de recursos naturais. Outro destaque importante é o risco que há na polarização política (3º no ranking dos dois próximos anos, mas que cai para o 9º lugar na perspectiva de dez anos). Os dados sugerem certo otimismo quanto às ações que governos e sociedade poderão empreender nos próximos dez anos em relação à desinformação e informações falsas, bem como à redução dos níveis de polarização política. Por outro lado, revelam quão grave são esses problemas atualmente. As informações falsas exigem ações efetivas. O poder da mentira e da mistificação atingiu níveis insuportáveis. Não é apenas uma questão que afeta a esfera política; ao contrário, ela transborda para o nível pessoal e cotidiano. Perfis falsos e difamações estabelecidas com base em relatos, fotos e vídeos forjados com maestria por inteligência artificial estão por todos os lados, ameaçando indivíduos em suas vidas. O discurso de liberdade absoluta de opinião e expressão não se sustenta. Há limites para a invasão da privacidade e a prática sistemática e organizada de fake news. A cada eleição tal fenômeno é ampliado e se agrava. E o mais grave é que a disseminação rápida nas redes sociais dessas mentiras é feita por milhões de anônimos, que, envolvidos ideologicamente, perdem a capacidade de análise e crítica, aceitando qualquer história ou denúncia, desde que consistente com suas opiniões ou visões de mundo. Quanto à polarização, oxalá esteja certo o Global Risks Report. É insuportável que o mundo conviva, indefinidamente, com essa luta feroz e destrutiva que fratura comunidades e impede o convívio democrático civilizado. Os analistas e líderes são mais céticos, porém, quanto ao meio ambiente. Se ele fica ofuscado agora pela desinformação sistemática e pela polarização, surge com vigor no horizonte um pouco mais longo, e acaba por se constituir no grande desafio do século 21.