Está escrito no pórtico do Cemitério São João Batista. Ainda adolescente, não era raro passar por ali, pois morava no mesmo bairro de Botafogo, mais próximo, aliás, da Igreja de São João Batista, oficialmente, Basílica de São João Batista da Lagoa, esta, situada a quilômetros dali. Vai entender... A igreja organizava sua tradicional quermesse, na qual eu e uns amigos e amigas trabalhamos numa festa junina. Não que fôssemos religiosos. Mesmo assim, procuramos o padre Arlindo e fizemos nossa solicitação, um pouco inusitada, segundo o próprio: uma barraca de cesta de basquete. Três reais, no equivalente ao dinheiro da época, um arremesso. Acertasse, ganhava uma prenda, previamente, arrecadada com os comerciantes locais. A renda era posteriormente recolhida pelo pároco, que depois informou, na missa, que a nossa tinha sido a barraca mais lucrativa. Mas isso pouco nos importava. Para mim, o mais importante foi a oportunidade de conhecer minha primeira namorada “à vera”, para ciúme geral da turma, por ser a garota mais bonita. Passeávamos em torno da Lagoa Rodrigo Freitas, namorando sob seu pôr de sol, jamais no cemitério. Minha mãe é que adorava ir ao cemitério. Ligava para uma sobrinha: — Sabe quem morreu? O presidente Dutra. Lá iam as duas acompanhar o cortejo, cujo caixão entrou na rua sobre um tanque de guerra. Não foram por solidariedade à família, nem, muito menos, por lealdade política. Foram ver os famosos de perto. No sepultamento da Leila Diniz, minha mãe foi traída emocionalmente pelo que Leila representava para as mulheres de sua geração e pela forma trágica de sua morte. Foram muitos outros enterros. Da cantora Clara Nunes, do ex-governador Carlos Lacerda, do poeta Vinícius de Moraes, do escritor Nelson Rodrigues e da cantora Maysa. Minha mãe já se sentia parte do “cast” da Globo. Mais tarde vim a entender a importância dos cemitérios, não só do ponto de vista de sua concentração de sentimentos de perdas pessoais, mas também pelo valor histórico e artístico de seus mausoléus e sepultaras. Não é raro cemitérios fazerem parte de roteiros turísticos pelo mundo. Um exemplo é o Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, conhecido, entre outros, pelo túmulo de Eva Perón. O cemitério francês Père-Lachaise se destaca pelos túmulos de Jim Morrison, Oscar Wilde, Allan Kardec, Frédéric Chopin, Édith Piaf, entre tantos outros. O interesse turístico está tanto na história das personalidades ali sepultadas quanto na beleza de sua arte tumular. Minha namorada já não está mais aqui. Como não fez carreira de expressão pública, ficou fora do roteiro turístico. Também ela voltou para seu lugar. *Médico