[[legacy_image_273672]] Desde a eleição de 2022, é nítido que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem grande rejeição em Santos. Passados pouco mais de cinco meses de sua posse, as avaliações negativas continuam altas, com boa parcela opinando que seu governo é péssimo. Em contrapartida, a minoria considera o presidente e seu governo como ótimo ou bom. Como explicar tal comportamento, levando em conta que a cidade tem um passado com forte presença da esquerda, como ficou consagrado pelo famoso Porto Vermelho? A explicação decorre do perfil socioeconômico: a classe média é predominante no município, e esse segmento, nos últimos anos, assumiu perfil mais conservador. Basta olhar o mapa eleitoral do País e isso fica muito claro: o PT, e Lula, concentram votos entre os mais pobres e a direita avançou e consolidou-se nos estratos médios e entre os mais ricos. O cientista político Carlos Henrique Santana identificou três fatores que explicam o antipetismo que se desenvolveu no País: as investigações sobre corrupção, lideradas pela Operação Lava Jato, o crescimento da população evangélica e o impacto crescente das redes sociais. O tema da corrupção é antigo no Brasil (basta ver os fenômenos Jânio Quadros e Fernando Collor em suas campanhas fulminantes); os evangélicos assumiram-se como força política organizada e alinhada à causa conservadora; e as redes sociais foram muito melhor aproveitadas pela direita, sem representar avanço da democracia e da cidadania. O resultado foi a descrença absoluta na política tradicional, nos partidos constituídos e, no limite, o questionamento da própria ordem democrática. Os eleitores de classe média, desiludidos e frustrados, cansados e descrentes, viraram à direita. Mas a rejeição a Lula ainda é mais forte que a crítica ao PT. Ele provoca reações extremadas de muita gente, quase beirando a irracionalidade. Lula tem defeitos, é evidente. Tem traços do antigo populismo, e parece aferrado a velhas ideias de fortalecimento exagerado do Estado, além de derrapar em falas e atitudes, como na recepção ao presidente venezuelano Nicolás Maduro, não admitindo a indiscutível ditadura naquele país. Mas daí a demonizá-lo, como fazem muitas pessoas, vai grande distância. De um lado há um ranço classista: os setores dominantes não aceitam que um operário-sindicalista ocupe a Presidência da República, e procuram desclassificá-lo a todo instante. A questão da corrupção ocupa grande espaço, mas, apesar de todo o barulho, as acusações contra ele, pessoalmente, limitaram-se ao tríplex do Guarujá e ao sítio de Atibaia. Houve corrupção nos governos petistas, sim, mas nada que vá além do padrão da política brasileira. Nada de cinismo nessa afirmação: é evidente que a prática de atos corruptos deve ser combatida e denunciada. Mas os críticos indignados e revoltados não se voltam contra os escândalos que atingiram todos os governantes da história recente brasileira. Lula e seu partido, o PT, merecem respeito, por seu compromisso com a democracia e pelos indiscutíveis avanços em políticas sociais em seus governos. Isso não significa aprovação ou aplauso geral: a democracia vive do contraditório, da crítica, da apresentação de visões e propostas alternativas. Mas isso deve ocorrer com racionalidade e bom senso. Não é o que muitas pessoas, por aí, especialmente da classe média, vêm fazendo.