(FreePik) Perplexos, buscamos explicações para fenômenos estranhos na política, como o apoio extremado de parcelas da população ao bolsonarismo ou a ascensão fulminante de Donald Trump, sem que haja reações expressivas da sociedade norte-americana. Como seria possível que boa parcela dos mais pobres, notadamente nos centros urbanos mais desenvolvidos, tenha se convertido à extrema direita, defendendo e votando em Jair Bolsonaro? Como entender o silêncio e a apatia do Congresso, da imprensa ou das empresas diante da avalanche de disparates que Trump vem cometendo desde sua posse como presidente dos Estados Unidos desde o final de janeiro? Para responder a essas perguntas, é preciso entender a motivação das pessoas em suas vidas, ou seja, o que as leva a tomar decisões e agir de determinada maneira. É comum imaginar que a racionalidade guie os comportamentos. Afinal, a civilização evoluiu e as pessoas, de modo geral, têm informações e vivem em um mundo onde técnica, ciência e razão predominam. Poucos, embora existam, vivem à margem disso, negando avanços e conquistas dos tempos mais recentes. Racionalidade, entretanto, não tem apenas a dimensão econômica. Não se trata de pesar ganhos e perdas materiais na vida de cada um. Essa questão é, evidentemente, importante, mas não única ou decisiva. Aumento de preços e inflação pioram o humor das pessoas, mas elas não se movem unicamente por isso. A economia existe dentro de um horizonte ético e social, no qual os indivíduos vivem, trabalham e se relacionam. Os marginalizados e excluídos sentem-se desconfortáveis na sociedade, e não são concessões econômicas pontuais que irão modificar suas ideias. Há, assim, um universo a disputar no campo da racionalidade, que vai além do bem-estar financeiro, e que envolve aspectos como valores e cultura, história e passado, presente e expectativas para o futuro, como transformações na vida produzidas pela iniciativa individual, o famoso empreendedorismo. Mas é importante salientar que a política se move também no plano do inconsciente, motivada por impulsos, emoções e afetos. Não é comum notar preocupação com esse plano, principalmente na esquerda. É aqui que a direita, especialmente nas franjas mais radicais, opera e avança, manipulando corações e almas, com competente utilização das mídias e redes sociais. O populismo demagógico explora as vulnerabilidades, o desencanto e a frustração das maiorias, cansadas de promessas vãs e resultados incertos em áreas tão fundamentais para elas como segurança e estabilidade profissional, descrentes de tudo e de todos, vendo corrupção por todos os lados. Oferecem eles respostas fáceis (e enganosas), mas atingem em cheio as expectativas mais urgentes. O desafio da política – e dos governos sérios – é compreender essa realidade. O discurso antigo não funciona, nem benesses pontuais para setores. É preciso compreender o mundo do século 21 e mover-se nele, com toda sua complexidade. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT)