A pesquisa “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes” revela um paradoxo inquietante: 91% dos brasileiros afirmam que o diálogo é a melhor forma de educar uma criança, mas 62% admitem já ter gritado com um filho, 49% reconhecem ter dado tapas e 27% relatam ter usado objetos para bater. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Como explicar essa contradição? Não estamos necessariamente diante de pais que acreditam que a violência seja a melhor maneira de educar, mas de adultos que, em momentos de estresse, não conseguem colocar em prática aquilo em que acreditam e acabam reproduzindo padrões vividos na própria infância. Não por acaso, 65% dos brasileiros afirmam ter sofrido agressões físicas quando crianças. A violência pode se tornar uma resposta automática diante do cansaço, da frustração e da sensação de perda de controle. Romper esse ciclo exige consciência, prática e novas ferramentas. Como afirma Jane Nelsen, criadora da Disciplina Positiva, “as pessoas fazem melhor quando sabem fazer melhor”. Se tantos pais desejam educar pelo diálogo, mas continuam gritando ou batendo, talvez o problema não esteja na falta de amor ou vontade, mas na ausência de conhecimento sobre como estabelecer limites com firmeza e respeito. Essa mudança começa pelo reconhecimento de uma verdade muitas vezes esquecida: criança não é um miniadulto. Ela ainda está desenvolvendo maturidade emocional, psicológica e neurológica. Está aprendendo a reconhecer, organizar e expressar suas emoções. Por isso, o comportamento que esperamos precisa ser ensinado. Ninguém aprende a respeitar sendo desrespeitado. E ninguém aprende a controlar a própria agressividade apanhando. A parentalidade consciente exige que o adulto olhe para além do comportamento. A pergunta deixa de ser apenas “como faço meu filho obedecer?” e passa a ser “o que está acontecendo com essa criança?”. E também: “o que está acontecendo comigo para que eu esteja reagindo dessa maneira?”. Reconhecer gatilhos, limites do estresse e novas formas de responder também faz parte de educar. Por isso, não basta dizer aos pais que não gritem ou não batam. É preciso ensiná-los a fazer diferente. Isso significa investir em educação parental, ampliar o conhecimento sobre desenvolvimento infantil e fortalecer o autoconhecimento dos adultos. Romper o ciclo da violência é decidir não entregar aos filhos as mesmas feridas que recebemos. Toda criança merece crescer em um ambiente seguro. E toda família precisa saber: educar sem violência não é um dom. É uma competência que pode e precisa ser construída.