A precariedade no investimento não impediu que a escola brasileira lograsse êxito nos últimos 30 anos (Hélder Lima/Prefeitura de Guarujá) Resultados da avaliação do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2023, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), mais uma vez direcionam a atenção da sociedade para o ensino do País. A presente edição ganhou ainda mais relevância devido à maior adesão no pós-pandemia – um terço dos estudantes esteve ausente devido às restrições pelo coronavírus em 2021, o que dificultou diagnóstico preciso das perdas do período de aulas remotas. A análise predominante na mídia tem disseminado uma mesma percepção a respeito de nossa educação: a escola pública é ruim e insistentemente fraca. Articulistas pouco variam nas razões para o revés educacional: um sistema escolar ineficiente, um suposto excesso de investimentos no setor e a desídia de um corpo docente ultrapassado. Pouco ou nada se fala sobre a inexistência de políticas públicas eficazes – estas mormente deliberadas em gabinete. De modo geral, as reações são pessimistas e desenham um cenário de terra arrasada. De acordo com o Censo Escolar divulgado pelo MEC, há no Brasil cerca de 117.500 unidades de educação básica, atendendo pouco mais de 27 milhões de estudantes. Na rede pública, somente 30% dessas unidades possuem laboratório de informática, 10% delas têm laboratório de ciências, 24% sala de leitura e 32% contam com biblioteca. Quando o assunto é inclusão, menos de 30% oferecem sala de atendimento educacional especializado. Um olhar nas condições de infraestrutura agrava o quadro: 44% das escolas oferecem acessibilidade, somente 47% estão conectadas à rede de saneamento básico, cerca de 22% não são atendidas pela coleta regular de lixo, apenas 15% realizam a reciclagem de seus resíduos e, apesar de 89% terem acesso à internet, 15% possuem retroprojetores – equipamentos portáteis, como tablets e similares, são praticamente inexistentes. Pesquisa ‘Education at a Glance 2023’, desenvolvida pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) revela que o investimento médio do Brasil em educação básica é aproximadamente quatro vezes menor do que o investido por países mais ricos. Porém, até mesmo economias menos robustas, como Argentina e Colômbia, destinam mais recursos para o setor. O Censo não mente. A precariedade no investimento não impediu que a escola brasileira lograsse êxito nos últimos 30 anos, sobretudo nos objetivos de ampliar o número de matrículas, melhorar o índice de alfabetização e reduzir a distorção idade-série. Todavia, em um ambiente educacional cada vez mais desalinhado às demandas atuais de aprendizado, a atuação docente torna-se espinhosa e estudar tarefa árdua para os alunos. Portanto, que governantes ponderem com urgência sobre os dados disponíveis e assegurem investimentos para a melhoria do sistema educacional. Quem sabe faz a hora! * Márcio Simões da Silva é professor das redes públicas municipais de São Vicente e Santos, especialista em Direito Educacional.