(Dorivan Marinho/SCO/STF) A sociedade brasileira está dividida, e a eleição presidencial polarizada entre dois candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Isso não é novidade para ninguém, e esse quadro vem se repetindo desde 2018. Não há favorito até aqui; as pesquisas recentes vêm mostrando empate técnico entre os dois. O governo tem cometido erros sucessivos, e parece não ter dado conta de que há, no país, um contingente expressivo de eleitores que prefere valores conservadores; que há rejeição consistente à Lula; que pautas importantes, como a questão da corrupção e da segurança, não têm sido respondidas de maneira eficaz. E mais: que o bolsonarismo tem sido capaz de capitalizar a indignação social extensa que há no Brasil. Fatos recentes, como a crise no Supremo Tribunal Federal (STF), colocando especialmente o ministro Alexandre de Moraes em situação difícil, favorecem a oposição. Embora não haja identificação mecânica entre o governo (Lula) e o STF (Moraes), o desgaste de Alexandre de Moraes, o grande algoz do bolsonarismo, favorece as teses de perseguição política e tornam as ações contra o golpe de Estado tramado no final de 2022 discutíveis e exageradas. A essa altura, pode-se dizer que os setores conservadores e moderados estariam dando as costas para Lula, e migrando para Flávio Bolsonaro. Ele representaria a face mais contida do bolsonarismo, menos radical, mais aberto ao diálogo, de modo a surgir como alternativa não apenas para a direita e extrema-direita, como também ao centro? Não me parece que esse seja seu perfil efetivo. Basta ver a trajetória política, totalmente ligada ao bolsonarismo raiz, jamais discordando ou confrontando as (esdrúxulas, para dizer o mínimo) teses e posturas do pai quando presidente. Ele nunca construiu, de fato, uma alternativa ou indicou caminhos diferentes. Garante que indultará os golpistas de 2022, e, claro, Jair Bolsonaro; não recuou um milímetro no discurso ultraconservador na segurança e no ataque às instituições; indicou que seu ministro das Relações Exteriores será o irmão Eduardo Bolsonaro, que dispensa comentários. Sempre quis o impeachment dos ministros do STF, muito antes do caso Master: não por uma crítica à promiscuidade de ministros com interesses empresariais, e sim pela fúria contra todo e qualquer juiz que se coloque na defesa da democracia e confronte interesses golpistas. A candidatura de Flávio foi escolha pessoal do pai, e representou o fracasso de qualquer tentativa de moderação do bolsonarismo. Ao contrário, é a reafirmação do discurso e das práticas de extrema-direita. Lula, por sua vez, tropeçando e claudicando, muitas vezes arrogante e insensível à realidade, é conhecido de todos, com seus erros e acertos. Longe de ser um radical de esquerda, é um moderado conciliador, que busca, nem sempre com sucesso, avançar em políticas sociais, mas sempre comprometido com a democracia. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT)