[[legacy_image_338331]] Impossível esquecer a ingenuidade da menina ao colocar na mesa da professora a singela flor colhida no caminho da escola. A mestra agradece comovida e conversa sobre essa árvore. Quaresmeiras florescem nos 40 dias antes da Páscoa, que celebra a ressurreição de Jesus Cristo. O roxo das flores é a cor da festa, mas as árvores desabrocham com a cor branca e vão se tornando violáceas, passando pelo rosa. A madeira, apesar da qualidade inferior, é usada na construção de vigas, caibros, postes, esteios e moirões para lugares secos. Alguns alunos levantam a mão, esperando o aceno da mestra para cada um falar por vez. Nos anos 50, a escola era uma instituição respeitada pela sociedade. Quantas perguntas aquelas crianças simplesinhas da Vila Nova fizeram, compartilhando em casa com os irmãos mais novos, sem idade para iniciar o curso primário. O jardim de infância era particular e o genitor, motorista da Marinha Mercante, não podia arcar com a despesa. A mãe da menina cuida da casa, mas tendo feito quatro anos do antigo ensino primário, está bem preparada e não descuida da educação dos filhos. A mãe aponta a serra e os contrafortes, nos passeios de lancha aos domingos, saindo pelo corredor escuro da rampa, que se abre ao Atlântico. A quaresmeira é característica da Serra do Mar. Crianças, elas podem dominar a paisagem e viver de 60 a 70 anos. A menina de outrora, no estresse da cidade que hoje é metrópole, pensa na tristeza da mãe se pudesse ver a quaresmeira respirar monóxido de carbono, viver menos de 50 anos e florescer só três vezes por ano. Pelas ruas de Santos, a constatação dos ensinamentos maternais. A espécie é muito utilizada na arborização urbana pela beleza e por suas raízes não soltarem o piso das calçadas. Os filhos percebem a harmonia da cor e do espaço até nos bordados da mãe, arrematados com biquinhos de crochê. O pai planta a muda no quintal. Os filhos observam o rápido crescimento e a floração na quaresma. E lá do tanque, a voz da mãe: a Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas, quando os fiéis são marcados na testa com cinzas. A marca permanece até o pôr do sol e lembra a tradição bíblica, quando jogavam cinzas nas suas cabeças como prova de arrependimento. A igreja veste roxo em luto pelo sofrimento de Cristo. Os fiéis do bairro refletem sobre a própria mortalidade. A menina, agora mulher feita, ainda escuta a doce voz maternal: Neste período, a Igreja silencia e apenas reza. Na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, ainda de pé, pois o gasoduto só explodiria muitos anos depois, a família chega para a missa de Domingo de Páscoa. Os pequenos vivenciam os ensinamentos da genitora. Observam o violeta ou roxo, cor da Quaresma, do Advento, das festividades dos defuntos e da confissão, remetendo à dor, à reflexão e à penitência. A toalha do altar, sempre branca, mas os respectivos adornos e franjas são de outra cor. Para guardar tão insigne verdade, a igreja não veste apenas o roxo, mas também o rosa da quaresmeira. Usado somente duas vezes em todo o ano litúrgico, associa-se tradicionalmente, a um sentido de alegria em um período de penitência. A mãe deixou gravado no coração da menina: há tristeza, mas também alegria, pois a morte e a vida não se separam. A menina cumpriu-se. Fez-se mãe e ensina aos filhos dos filhos que morremos um pouco cada dia para renascer.